Ajuda Mútua: Entre os Animais X Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução: Tradução Literunico · Capítulo 12 de 86
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Ajuda Mútua: Entre os Animais X

Percebe-se, mesmo a partir desse breve exame, que a vida em sociedades está longe de ser exceção no mundo animal. Ela é a regra, a lei da natureza, e alcança seu desenvolvimento mais completo entre os vertebrados superiores. As espécies que vivem solitárias, ou apenas em pequenas famílias, são relativamente poucas, e seus números são limitados. Parece até muito provável que, salvo poucas exceções, as aves e os mamíferos hoje afastados da vida gregária tenham vivido em sociedades antes que o homem se multiplicasse sobre a terra, movesse contra eles uma guerra permanente ou destruísse as fontes das quais antes tiravam alimento. "On ne s'associe pas pour mourir", foi a observação justa de Espinas, e Houzeau, que conheceu o mundo animal de algumas partes da América quando ainda permanecia pouco afetado pelo homem, escreveu no mesmo sentido.

A associação aparece no mundo animal em todos os graus da evolução. Segundo a grande ideia de Herbert Spencer, desenvolvida de forma brilhante por Perrier em Colonies Animales, as colônias estão na própria origem da evolução no reino animal. À medida que subimos a escala evolutiva, a associação torna-se cada vez mais consciente. Ela perde seu caráter puramente físico, deixa de ser simplesmente instintiva e passa a ser refletida. Entre os vertebrados superiores, é periódica, ou é buscada para satisfazer uma necessidade determinada, como propagação da espécie, migração, caça ou defesa mútua. Torna-se até ocasional quando aves se associam contra um salteador, ou quando mamíferos se combinam, sob a pressão de circunstâncias excepcionais, para emigrar. Neste último caso, aparece como desvio voluntário em relação aos modos habituais de vida.

A combinação às vezes surge em dois ou mais graus: primeiro a família, depois o grupo, por fim a associação de grupos que habitualmente ficam espalhados e se unem em caso de necessidade, como vimos nos bisões e em outros ruminantes. Ela também assume formas mais altas, garantindo maior independência ao indivíduo sem privá-lo dos benefícios da vida social. Entre a maioria dos roedores, cada indivíduo possui sua própria morada, para a qual pode retirar-se quando prefere ficar só, e as moradas são dispostas em aldeias e cidades, de modo a garantir a todos os habitantes os benefícios e prazeres da vida comum. Em várias espécies, como ratos, marmotas, lebres e outras, a vida sociável mantém-se apesar das inclinações briguentas ou egoístas do indivíduo isolado. Longe de ser imposta pela própria estrutura fisiológica dos indivíduos, como acontece com formigas e abelhas, ela é cultivada pelos benefícios da ajuda mútua ou pelo prazer que proporciona. Essa vida social aparece, naturalmente, em todas as gradações possíveis e com a maior variedade de caracteres individuais e específicos. A própria variedade das formas assumidas pela vida social torna-se consequência e, para nós, prova suplementar de sua generalidade.(24)

A sociabilidade, isto é, a necessidade que o animal sente de associar-se a seus semelhantes, o amor da sociedade por ela mesma combinado com a "alegria de viver", só agora começa a receber dos zoólogos a atenção devida.(25) Sabemos hoje que todos os animais, das formigas às aves e destas aos mamíferos superiores, gostam de brincadeiras, lutas, corridas uns atrás dos outros, tentativas de captura e provocações recíprocas. Muitas brincadeiras são, de certo modo, uma escola para a conduta apropriada dos jovens na vida adulta. Outras, à parte seus fins utilitários, são, junto com a dança e o canto, simples manifestações de um excesso de forças, da "alegria de viver" e do desejo de comunicar-se de algum modo com indivíduos da mesma espécie ou de espécies diferentes. Em suma, são manifestações da sociabilidade propriamente dita, traço distintivo de todo o mundo animal.(26)

Seja o sentimento de medo experimentado ao aparecer uma ave de rapina, seja um acesso de alegria que irrompe quando os animais estão sadios e sobretudo quando são jovens, seja apenas o desejo de dar expansão a impressões e forças vitais excedentes, a necessidade de comunicar impressões, brincar, tagarelar ou simplesmente sentir a proximidade de outros seres vivos aparentados percorre a natureza e é, tanto quanto qualquer função fisiológica, um traço distintivo da vida e da sensibilidade. Essa necessidade alcança desenvolvimento mais alto e expressão mais bela nos mamíferos, especialmente entre seus filhotes, e ainda mais entre as aves. Mesmo com essa amplitude, espalha-se por toda a natureza e foi plenamente observada pelos melhores naturalistas, inclusive Pierre Huber, até entre as formigas. É evidentemente o mesmo instinto que reúne as grandes colunas de borboletas mencionadas antes.

O hábito de reunir-se para dançar e de decorar os lugares onde as aves costumam realizar suas danças é conhecido, naturalmente, pelas páginas que Darwin dedicou ao assunto em A Descendência do Homem, capítulo XIII. Os visitantes dos Jardins Zoológicos de Londres também conhecem a construção do pássaro-cetim. Esse hábito de dançar parece, contudo, muito mais disseminado do que se acreditava no passado, e W. Hudson oferece, em sua obra-prima sobre La Plata, uma descrição interessantíssima, que deve ser lida no original, de danças complexas realizadas por grande número de aves: saracuras, jaçanãs, quero-queros e outras.

O hábito de cantar em concerto, existente em várias espécies de aves, pertence à mesma categoria de instintos sociais. Ele se desenvolve de modo mais marcante no chajá, Chauna chavarris, ao qual os ingleses deram o apelido pouco imaginativo de "gritador-de-crista". Essas aves às vezes se reúnem em imensos bandos e, nesses casos, frequentemente cantam todas em concerto. W. H. Hudson encontrou-as certa vez em número incontável, dispostas ao redor de um lago dos pampas em bandos bem definidos, cada qual com cerca de quinhentas aves. "Em seguida", escreve ele, "um bando perto de mim começou a cantar e continuou seu canto poderoso por três ou quatro minutos. Quando cessou, o bando seguinte tomou a melodia, depois outro, até que as notas dos bandos da margem oposta vieram flutuando fortes e claras sobre a água. Depois afastaram-se, tornando-se cada vez mais fracas, até que o som se aproximou outra vez de mim, retornando ao meu lado."

Em outra ocasião, o mesmo escritor viu uma planície inteira coberta por um bando sem fim de chajás, espalhados aos pares e em pequenos grupos. Por volta das nove horas da noite, "subitamente toda a multidão de aves que cobria o pântano por milhas ao redor rompeu num tremendo canto vespertino... Era um concerto pelo qual valeria cavalgar cem milhas".(27) Pode-se acrescentar que, como todos os animais sociáveis, o chajá torna-se facilmente manso e adquire grande apego ao homem. "São aves de temperamento brando e raramente brigam", dizem-nos, embora estejam muito bem providas de armas formidáveis. A vida em sociedades torna inúteis essas armas.

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