Ajuda Mútua: Entre Nós XXI
Essas associações deixam intacta a estratificação de riqueza da sociedade e, em especial nas cidades pequenas, ajudam a suavizar distinções sociais. Como todas tendem a reunir-se em grandes federações nacionais e internacionais, contribuem para o crescimento de relações pessoais amistosas entre homens de todos os tipos, espalhados por diferentes partes do mundo. Os clubes alpinos, o Jagdschutzverein alemão, com mais de cem mil membros entre caçadores, guardas florestais instruídos, zoólogos e simples amantes da natureza, e a Sociedade Ornitológica Internacional, que reunia zoólogos, criadores e camponeses alemães, tinham o mesmo caráter.
Essas associações realizaram em poucos anos grande quantidade de trabalho útil, próprio de organismos amplos: mapas, refúgios, estradas de montanha, estudos da vida animal, dos insetos nocivos e das migrações de aves. Ao mesmo tempo, criaram laços novos entre os homens. Dois alpinistas de nacionalidades diferentes que se encontram num abrigo do Cáucaso, ou o professor e o camponês ornitólogo hospedados na mesma casa, deixam de ser estranhos um para o outro. A Sociedade Uncle Toby, em Newcastle, que já havia levado mais de duzentos e sessenta mil meninos e meninas a nunca destruir ninhos e a tratar bem os animais, fizera mais pelo desenvolvimento dos sentimentos humanos e do gosto pela ciência natural que muitos moralistas e grande parte das escolas.
Também não se podem omitir, mesmo numa revisão rápida, as milhares de sociedades científicas, literárias, artísticas e educacionais. Até então, os corpos científicos, controlados de perto e muitas vezes subsidiados pelo Estado, moviam-se em círculo estreito e chegavam a ser vistos como simples caminhos para cargos oficiais, enquanto a estreiteza de seus círculos produzia ciúmes pequenos. Ainda havia, nessas associações, uma capacidade real de suavizar distinções de nascimento, partidos e credos. Em cidades menores e remotas, sociedades científicas, geográficas ou musicais, especialmente quando se dirigiam a um círculo amplo de amadores, tornavam-se pequenos centros de vida intelectual, uma ligação entre o lugar pequeno e o mundo amplo, e um espaço onde homens de condições muito diferentes se encontravam em pé de igualdade.
Para apreciar plenamente o valor desses centros, diz Kropotkin, é preciso conhecê-los em lugares como a Sibéria. Quanto às sociedades educacionais, que começavam a romper o monopólio do Estado e da Igreja sobre a educação, estavam destinadas a tornar-se em pouco tempo força dirigente nesse campo. Às Uniões Froebel já se devia o sistema de jardins de infância, e a numerosas associações formais e informais se devia o alto padrão da educação feminina na Rússia, embora esses grupos tivessem de agir sempre em oposição a um governo poderoso.(15) As sociedades pedagógicas da Alemanha, por sua vez, haviam feito a melhor parte do trabalho na elaboração de métodos modernos para o ensino das ciências nas escolas populares.
Nessas associações, o professor encontrava seu melhor apoio. Sem elas, a situação do professor aldeão, sobrecarregado e mal pago, teria sido miserável.(16) Todas essas associações, sociedades, fraternidades, alianças e institutos, que já deviam ser contados às dezenas de milhares só na Europa, representavam imensa quantidade de trabalho voluntário, sem ambição, não pago ou mal pago. Que eram elas senão manifestações, sob variedade quase infinita de aspectos, da mesma tendência viva do ser humano à ajuda e ao apoio mútuos?
Durante quase três séculos, os homens foram impedidos de unir as mãos até para fins literários, artísticos e educacionais. Sociedades só podiam formar-se sob proteção do Estado, da Igreja ou em irmandades secretas como a maçonaria. Depois que a resistência foi rompida, elas se multiplicaram em todas as direções, estenderam-se por ramos variados da atividade humana, tornaram-se internacionais e contribuíram, em extensão ainda difícil de avaliar, para derrubar as barreiras erguidas pelos Estados entre nacionalidades diferentes. Apesar dos ciúmes gerados pela concorrência comercial e das provocações ao ódio lançadas por fantasmas de um passado em decadência, crescia uma consciência de solidariedade internacional entre os espíritos mais ativos do mundo e entre as massas trabalhadoras, desde que estas também conquistaram o direito de contato internacional.
As associações religiosas de caridade, que constituem outro mundo inteiro, também precisam ser mencionadas. Não há dúvida de que a grande massa de seus membros é movida pelos mesmos sentimentos de ajuda mútua comuns a toda a humanidade. Infelizmente, os mestres religiosos preferem atribuir a esses sentimentos origem sobrenatural. Muitos pretendem que o homem só obedece conscientemente à inspiração de ajuda mútua depois de iluminado pelos ensinamentos da religião específica que representam, e, com Santo Agostinho, muitos deles recusam reconhecer tais sentimentos no selvagem pagão. A Igreja cristã, embora o cristianismo primitivo, como outras religiões, tivesse sido apelo aos sentimentos humanos amplos de ajuda e simpatia, ajudou o Estado a arruinar todas as instituições permanentes de ajuda mútua anteriores a ela ou desenvolvidas fora dela. Em lugar da ajuda mútua que todo selvagem considera devida a seus parentes, pregou a caridade, com caráter de inspiração vinda de cima, implicando certa superioridade de quem dá sobre quem recebe.
Com essa reserva, e sem intenção de ofender aqueles que se consideram corpo eleito quando realizam atos simplesmente humanos, Kropotkin aceita considerar o imenso número de associações religiosas de caridade como resultado da mesma tendência de ajuda mútua. Todos esses fatos mostram que a busca imprudente de interesses pessoais, sem atenção às necessidades dos outros, não é o único traço da vida moderna. Ao lado dessa corrente que reivindica direção nos assuntos humanos, existe uma luta dura, sustentada pelas populações rurais e industriais, para reintroduzir instituições permanentes de ajuda e apoio mútuos. Em todas as classes da sociedade, descobre-se um movimento amplo em direção a uma variedade infinita de instituições mais ou menos permanentes com o mesmo fim. Ao passar da vida pública para a vida privada do indivíduo moderno, surge outro mundo imenso de ajuda e apoio mútuos, quase sempre despercebido pelos sociólogos por ficar limitado ao círculo estreito da família e da amizade pessoal.(17)