Ajuda Mútua: Na Cidade Medieval XIV
Resta ainda outra causa do declínio das instituições comunais, situada acima e mais fundo que todas as anteriores. A história das cidades medievais oferece uma das ilustrações mais impressionantes do poder das ideias e dos princípios sobre os destinos da humanidade, e também dos resultados opostos que surgem quando uma modificação profunda das ideias diretoras se instala.
A autoconfiança e o federalismo, a soberania de cada grupo e a construção do corpo político do simples para o composto eram as ideias dominantes no século XI. Desde então, as concepções haviam mudado por inteiro. Os estudantes de direito romano e os prelados da Igreja, estreitamente ligados desde o tempo de Inocêncio III, tinham conseguido paralisar a ideia, a antiga ideia grega, que presidira a fundação das cidades. Durante dois ou três séculos ensinaram do púlpito, da cátedra universitária e do banco dos juízes que a salvação devia ser procurada num Estado fortemente centralizado, colocado sob autoridade semidivina.(41)
Ensinavam que um homem podia e devia ser o salvador da sociedade, e que, em nome da salvação pública, podia cometer qualquer violência: queimar homens e mulheres na fogueira, fazê-los morrer sob torturas indescritíveis, mergulhar províncias inteiras na miséria mais abjeta. Não deixaram de oferecer lições práticas em grande escala, com crueldade inaudita, onde quer que a espada do rei e o fogo da Igreja, ou ambos ao mesmo tempo, conseguissem alcançar. Por esses ensinamentos e exemplos, continuamente repetidos e impostos à atenção pública, as próprias mentes dos cidadãos haviam sido moldadas numa forma nova.
Começaram a não considerar excessiva nenhuma autoridade, nem cruel demais nenhuma morte lenta, desde que tudo fosse feito pela segurança pública. Com essa nova direção do espírito e essa nova crença no poder de um só homem, o antigo princípio federalista empalideceu, e o próprio gênio criador das massas morreu. A ideia romana saíra vitoriosa, e nessas circunstâncias o Estado centralizado encontrou nas cidades uma presa pronta.
Florença, no século XV, é típica dessa mudança. Antes, uma revolução popular era o sinal de uma nova partida. Agora, quando o povo, levado ao desespero, se insurgia, já não possuía ideias construtivas, e nenhuma ideia fresca nascia do movimento. Mil representantes eram postos no Conselho Comunal em lugar de quatrocentos, cem homens entravam na signoria em lugar de oitenta, e uma revolução de números não podia valer diante de um descontentamento que crescia e chamava novas revoltas. Um salvador, o tirano, era convocado para massacrar os rebeldes, enquanto a desintegração do corpo comunal continuava pior que antes.
Quando, depois de nova revolta, o povo de Florença pediu conselho a seu homem mais popular, Girolamo Savonarola, a resposta do monge foi esta: "Ó meu povo, sabes que não posso entrar nos assuntos do Estado... purifica tua alma, e se, com tal disposição de espírito, reformares tua cidade, então, povo de Florença, terás inaugurado a reforma em toda a Itália!" Máscaras de carnaval e livros viciosos foram queimados, uma lei de caridade e outra contra usurários foram aprovadas, e a democracia de Florença permaneceu onde estava. A velha disposição havia partido. Por terem confiado demais no governo, deixaram de confiar em si mesmos e ficaram incapazes de abrir novos caminhos. O Estado só precisava entrar e esmagar suas últimas liberdades.
A corrente de ajuda e apoio mútuos, no entanto, não morreu nas massas e continuou a correr depois dessa derrota. Erguer-se-ia outra vez com força formidável, em resposta aos apelos comunistas dos primeiros propagandistas da Reforma, e continuaria a existir mesmo depois que as massas, sem conseguir realizar a vida que esperavam inaugurar sob a inspiração de uma religião reformada, caíssem sob o domínio de um poder autocrático. Corre ainda agora, procurando seu caminho para encontrar uma nova expressão que não seja o Estado, nem a cidade medieval, nem a comunidade aldeã dos bárbaros, nem o clã selvagem, e que proceda de todos eles, superando-os por concepções mais amplas e mais profundamente humanas.