Ajuda Mútua: Na Cidade Medieval X Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução: Tradução Literunico · Capítulo 53 de 86
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Ajuda Mútua: Na Cidade Medieval X

A vida de uma cidade medieval foi sucessão de batalhas difíceis para conquistar a liberdade e mantê-la. Nesses conflitos severos desenvolveu-se uma raça forte e tenaz de burgueses. O amor e a veneração pela cidade-mãe nasceram dessas lutas, e as grandes realizações das comunas medievais foram resultado direto desse amor. Os sacrifícios que as comunas tiveram de suportar em sua batalha pela liberdade foram cruéis, deixando marcas profundas de divisão em sua vida interna.

Pouquíssimas cidades conseguiram obter liberdade de uma só vez, graças a uma reunião favorável de circunstâncias, e essas poucas em geral a perderam com igual facilidade. A grande maioria precisou lutar cinquenta ou cem anos seguidos, muitas vezes mais, antes que seus direitos à vida livre fossem reconhecidos, e outro século para firmar essa liberdade sobre base sólida. As cartas do século XII foram apenas um dos degraus da liberdade.(15) Na realidade, a cidade medieval era um oásis fortificado em meio a uma região mergulhada na submissão feudal, e teve de abrir espaço para si pela força de suas armas.

Em consequência das causas apontadas no capítulo anterior, cada comunidade aldeã havia caído gradualmente sob o jugo de algum senhor leigo ou clerical. Sua casa transformara-se em castelo, e seus companheiros de armas eram agora a escória dos aventureiros, sempre prontos a pilhar os camponeses. Além dos três dias por semana que os camponeses tinham de trabalhar para o senhor, eram obrigados a suportar toda espécie de exações pelo direito de semear e colher, de estar alegres ou tristes, de viver, casar-se ou morrer. O pior era que se viam continuamente saqueados pelos homens armados de algum senhor vizinho, que escolhia considerá-los parentes de seu inimigo e descarregar sobre eles, seu gado e suas colheitas a vingança por uma inimizade travada contra o dono da terra. Cada prado, cada campo, cada rio, cada estrada ao redor da cidade, e cada homem sobre a terra, estava sob algum senhor.

O ódio dos burgueses pelos barões feudais encontrou expressão característica na redação das diferentes cartas que os obrigaram a assinar. Henrique V, na carta concedida a Speier em 1111, é levado a declarar que libertava os burgueses da horrível e execrável lei de mão-morta, pela qual a cidade fora lançada na mais profunda pobreza. A coutume de Bayonne, escrita por volta de 1273, contém passagens nas quais se afirma que o povo é anterior aos senhores, e que o povo, mais numeroso que todos os outros, desejoso de paz, fez os senhores para refrear e derrubar os poderosos. Uma carta submetida à assinatura do rei Roberto é igualmente característica: nela o rei afirma que não roubará bois nem outros animais, não prenderá mercadores, não tomará seu dinheiro nem imporá resgate, não tomará cavalos, éguas ou potros nos prados entre o dia de Nossa Senhora e o dia de Todos os Santos, não queimará moinhos nem roubará farinha, e não dará proteção a ladrões. A carta concedida pelo arcebispo Hugues de Besançon, na qual ele foi compelido a enumerar todos os males devidos a seus direitos de mão-morta, tem o mesmo caráter.(16)

A liberdade não podia ser mantida em tal ambiente, e as cidades foram compelidas a travar guerra fora de seus muros. Os burgueses enviavam emissários para conduzir a revolta nas aldeias, recebiam aldeias em suas corporações e faziam guerra direta aos nobres. Na Itália, onde a terra estava densamente coberta de castelos feudais, a guerra assumiu proporções heroicas e foi travada com dura acrimônia dos dois lados. Florença sustentou durante setenta e sete anos uma sucessão de guerras sangrentas para libertar seu contado dos nobres. Quando a conquista foi concluída, em 1181, tudo precisou começar outra vez. Os nobres reagruparam-se, constituíram suas próprias ligas contra as ligas das cidades e, recebendo novo apoio do imperador ou do papa, prolongaram a guerra por mais cento e trinta anos. O mesmo ocorreu em Roma, na Lombardia e por toda a Itália.

Prodígios de valentia, audácia e tenacidade foram realizados pelos cidadãos nessas guerras. Os arcos e machados das artes e ofícios nem sempre levavam vantagem contra os cavaleiros cobertos de armadura, e muitos castelos resistiram às máquinas de cerco engenhosas e à perseverança dos cidadãos. Algumas cidades, como Florença, Bolonha e muitas cidades da França, da Alemanha e da Boêmia, conseguiram emancipar as aldeias ao redor, recebendo por seus esforços uma prosperidade e uma tranquilidade extraordinárias. Ainda nesses casos, e com maior frequência nas cidades menos fortes ou menos impulsivas, os mercadores e artesãos, exaustos pela guerra e confundindo seus próprios interesses, negociaram acima da cabeça dos camponeses.

Obrigaram o senhor a jurar fidelidade à cidade. Seu castelo rural era desmantelado, e ele concordava em construir casa e residir na cidade, da qual se tornava coburguês, com-bourgeois ou con-cittadino. Em troca, conservava a maior parte de seus direitos sobre os camponeses, que obtinham apenas alívio parcial de seus encargos. O burguês não compreendeu que direitos iguais de cidadania podiam ser concedidos ao camponês de cujo alimento dependia, e uma fenda profunda foi aberta entre cidade e aldeia. Em alguns casos, os camponeses simplesmente mudaram de donos: a cidade comprava os direitos dos barões e os revendia em partes a seus próprios cidadãos.(17) A servidão foi mantida. Só muito mais tarde, perto do fim do século XIII, a revolução dos ofícios empreendeu pôr fim a ela e aboliu a servidão pessoal, ao mesmo tempo que desapossou os servos da terra.(18) Mal é preciso acrescentar que os resultados fatais dessa política logo foram sentidos pelas próprias cidades. O campo tornou-se inimigo da cidade.

A guerra contra os castelos teve outro efeito nocivo. Envolveu as cidades numa longa sucessão de guerras mútuas, que deu origem à teoria, até recentemente em voga, segundo a qual as cidades perderam sua independência por causa de seus ciúmes e combates recíprocos. Os historiadores imperialistas sustentaram essa teoria com especial insistência, mas a pesquisa moderna a enfraqueceu bastante. É certo que, na Itália, as cidades combateram entre si com animosidade obstinada, mas em nenhum outro lugar tais conflitos atingiram as mesmas proporções. Na própria Itália, as guerras urbanas, sobretudo as do período inicial, tiveram causas especiais. Foram, como Sismondi e Ferrari já mostraram, simples continuação da guerra contra os castelos, com o princípio municipal livre e federativo entrando inevitavelmente em luta severa contra feudalismo, imperialismo e papado.

Muitas cidades que haviam apenas sacudido parcialmente o jugo do bispo, do senhor ou do imperador foram simplesmente empurradas contra as cidades livres pelos nobres, pelo imperador e pela Igreja, cuja política era dividir as cidades e armá-las umas contra as outras. Essas circunstâncias especiais, refletidas em parte também na Alemanha, explicam por que as cidades italianas, algumas buscando apoio no imperador para combater o papa e outras buscando apoio na Igreja para resistir ao imperador, logo se dividiram entre gibelinos e guelfos, e por que a mesma divisão apareceu em cada cidade.(19) O imenso progresso material realizado pela maioria das cidades italianas justamente quando essas guerras estavam mais acesas,(20) e as alianças concluídas com tanta facilidade entre cidades, caracterizam melhor esses conflitos e enfraquecem ainda mais a teoria mencionada.

Já entre os anos 1130 e 1150 surgiram ligas poderosas. Poucos anos depois, quando Frederico Barbarossa invadiu a Itália e, apoiado pelos nobres e por algumas cidades retardatárias, marchou contra Milão, o entusiasmo popular foi despertado em muitas cidades por pregadores populares. Crema, Piacenza, Brescia, Tortona e outras foram em socorro de Milão. As bandeiras das guildas de Verona, Pádua, Vicenza e Treviso flutuaram lado a lado no acampamento das cidades contra as bandeiras do imperador e dos nobres. No ano seguinte surgiu a Liga Lombarda, e sessenta anos depois ela apareceu reforçada por muitas outras cidades, formando organização duradoura que mantinha metade de seu tesouro federal de guerra em Gênova e a outra metade em Veneza.(21) Na Toscana, Florença encabeçou outra liga poderosa, da qual participavam Lucca, Bolonha, Pistoia e outras cidades, e que teve papel importante em abater os nobres na Itália central. Ligas menores eram ocorrência comum.

Fica certo, portanto, que ciúmes pequenos existiam sem dúvida e que a discórdia podia ser semeada com facilidade, mas não impediram as cidades de unir-se para a defesa comum da liberdade. Só mais tarde, quando cidades separadas se tornaram pequenos Estados, guerras irromperam entre elas, como sempre ocorre quando Estados lutam por supremacia ou colônias. Ligas semelhantes foram formadas na Alemanha com o mesmo fim. Quando, sob os sucessores de Conrado, a terra se tornou presa de inimizades intermináveis entre nobres, as cidades da Vestfália concluíram uma liga contra os cavaleiros, uma de cujas cláusulas proibia emprestar dinheiro a cavaleiro que continuasse a esconder bens roubados.(22) Quando os cavaleiros e nobres viviam de pilhagem e matavam quem queriam matar, como lamenta o Wormser Zorn, as cidades do Reno, Mainz, Colônia, Speier, Estrasburgo e Basileia, tomaram a iniciativa de uma liga que logo reuniu sessenta cidades aliadas, reprimiu os ladrões e manteve a paz.

Mais tarde, a liga das cidades da Suábia, dividida em três distritos de paz, Augsburgo, Constança e Ulm, teve o mesmo objetivo. Mesmo quando tais ligas eram rompidas,(23) viviam tempo suficiente para mostrar que, enquanto os supostos pacificadores, reis, imperadores e Igreja, fomentavam discórdia e eram impotentes diante dos cavaleiros ladrões, o impulso para restabelecer paz e união vinha das cidades. As cidades, e não os imperadores, foram as verdadeiras criadoras da unidade nacional.(24)

Federações semelhantes foram organizadas com o mesmo objetivo entre pequenas aldeias, e agora que Luchaire chamou atenção para esse assunto é possível esperar conhecer muito mais sobre elas. Aldeias uniam-se em pequenas federações no contado de Florença, e também nas dependências de Novgorod e Pskov. Quanto à França, há prova positiva de uma federação de dezessete aldeias camponesas que existiu no Laonnais por quase cem anos, até 1256, e lutou duramente por sua independência. Três outras repúblicas camponesas, que haviam jurado cartas semelhantes às de Laon e Soissons, existiam nas proximidades de Laon e, como seus territórios eram contíguos, apoiavam-se mutuamente em suas guerras de libertação. Luchaire é da opinião de que muitas federações semelhantes devem ter surgido na França nos séculos XII e XIII, embora os documentos relativos a elas estejam em grande parte perdidos. Naturalmente, sem a proteção de muros, podiam ser esmagadas com facilidade por reis e senhores. Em circunstâncias favoráveis, quando encontravam apoio numa liga de cidades e proteção em suas montanhas, essas repúblicas camponesas tornaram-se unidades independentes da Confederação Suíça.(25)

Quanto às uniões entre cidades para fins pacíficos, eram muito comuns. O intercâmbio estabelecido durante o período de libertação não foi interrompido depois. Às vezes, quando os scabini de uma cidade alemã tinham de pronunciar sentença em caso novo ou complicado e declaravam não conhecer a decisão, enviavam delegados a outra cidade para obtê-la. O mesmo acontecia na França.(26) Forli e Ravena são conhecidas por terem naturalizado mutuamente seus cidadãos e concedido direitos plenos a eles nas duas cidades. Submeter uma disputa surgida entre duas cidades, ou dentro de uma cidade, a outra comuna convidada a atuar como árbitra também estava no espírito do tempo.(27) Tratados comerciais entre cidades eram habituais.(28) Uniões destinadas a regular a produção e o tamanho de tonéis usados no comércio de vinho, uniões do arenque e associações semelhantes foram simples precursoras das grandes federações comerciais da Hansa flamenga e, depois, da grande Hansa do norte da Alemanha. Só a história desta última poderia oferecer páginas e páginas para ilustrar o espírito federativo que impregnava os homens daquele tempo.

Mal é preciso acrescentar que, por meio das uniões hanseáticas, as cidades medievais contribuíram mais para o desenvolvimento do intercâmbio internacional, da navegação e das descobertas marítimas que todos os Estados dos primeiros dezessete séculos de nossa era. Federações entre pequenas unidades territoriais, federações entre homens unidos por atividades comuns em suas guildas respectivas, e federações entre cidades e grupos de cidades constituíam a própria essência da vida e do pensamento desse período. Os primeiros cinco séculos do segundo milênio de nossa era podem ser descritos como uma imensa tentativa de garantir ajuda e apoio mútuos em grande escala, por meio dos princípios de federação e associação levados a todas as manifestações da vida humana e a todos os graus possíveis. Essa tentativa teve êxito em extensão muito grande. Uniu homens antes separados, garantiu-lhes larga parcela de liberdade e multiplicou suas forças. Num tempo em que o particularismo era alimentado por tantas causas, e em que os motivos de discórdia e ciúme podiam ser numerosos, é consolador observar que cidades espalhadas por vasto continente tinham tanto em comum e estavam tão prontas a confederar-se para tantos fins compartilhados. No longo prazo, sucumbiram diante de inimigos poderosos. Por não terem compreendido o princípio da ajuda mútua com amplitude suficiente, cometeram erros fatais. Mesmo com esses limites, não pereceram por seus próprios ciúmes, e seus erros não foram falta de espírito federativo entre elas.

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