Ajuda Mútua: Povos Primitivos XI Ajuda Mútua: Um Fator de Evolução: Tradução Literunico · Capítulo 30 de 86
Obra Menu

Ajuda Mútua: Povos Primitivos XI

Kropotkin encerra essas observações mencionando outro costume que também é fonte de conclusões muito erradas: a prática da vingança de sangue. Todos os povos primitivos estão sob a impressão de que sangue derramado deve ser vingado por sangue. Se alguém foi morto, o assassino deve morrer. Se alguém foi ferido, o sangue do agressor deve ser derramado. Não há exceção à regra, nem mesmo para animais. O sangue do caçador é derramado quando ele retorna à aldeia depois de ter derramado o sangue de um animal. Essa é a concepção de justiça dos povos primitivos, uma concepção que ainda prevalece na Europa ocidental em relação ao assassinato. Quando ofensor e ofendido pertencem à mesma tribo, a tribo e a pessoa ofendida resolvem o caso.(39) Quando o ofensor pertence a outra tribo, e essa tribo, por uma razão ou outra, recusa compensação, a tribo ofendida decide tomar a vingança por si.

Os povos primitivos consideram os atos de cada pessoa como assunto tribal, dependente da aprovação tribal, e por isso pensam facilmente o clã responsável pelos atos de qualquer um de seus membros. A vingança devida pode, portanto, recair sobre qualquer membro do clã ou dos parentes do ofensor.(40) Muitas vezes, contudo, a retaliação ultrapassa a ofensa. Ao tentar infligir uma ferida, podem matar o ofensor ou feri-lo além do pretendido, e isso se torna causa de nova disputa. Por esse motivo, os legisladores primitivos cuidaram de exigir que a retaliação ficasse limitada a olho por olho, dente por dente e sangue por sangue.(41) É notável que entre a maioria dos povos primitivos tais disputas sejam infinitamente mais raras do que se poderia esperar. Em alguns casos, elas chegam a proporções anormais, especialmente entre montanheses empurrados para as terras altas por invasores estrangeiros, como os montanheses do Cáucaso e sobretudo os de Bornéu, os dayaks.

Sobre os dayaks, Kropotkin lembra que se dizia havia pouco que as disputas tinham ido tão longe que um jovem não podia casar-se nem ser proclamado adulto antes de ter obtido a cabeça de um inimigo. Essa prática horrível foi plenamente descrita em uma obra inglesa moderna.(42) Parece, contudo, que tal afirmação era grosseiramente exagerada. Além disso, a chamada caça de cabeças dos dayaks assume aspecto muito diferente quando se sabe que o suposto caçador de cabeças está longe de agir por paixão pessoal. Age sob aquilo que considera obrigação moral para com a tribo, tal como o juiz europeu que, em obediência ao mesmo princípio, evidentemente errado, de sangue por sangue, entrega o assassino condenado ao carrasco. Tanto o dayak quanto o juiz sentiriam remorso se a simpatia os levasse a poupar o condenado. Por isso os dayaks, à parte os homicídios cometidos quando movidos por sua concepção de justiça, são descritos por todos os que os conhecem como povo muito simpático.

Carl Bock, o mesmo autor que apresentou quadro tão terrível da caça de cabeças, escreve: "No que diz respeito à moralidade, sou obrigado a atribuir aos dayaks um lugar elevado na escala da civilização... Roubos e furtos são inteiramente desconhecidos entre eles. Também são muito verídicos... Se nem sempre obtive deles a verdade inteira, sempre obtive, ao menos, nada além da verdade. Gostaria de poder dizer o mesmo dos malaios", páginas 209 e 210. O testemunho de Bock é plenamente corroborado pelo de Ida Pfeiffer. "Reconheci plenamente", escreveu ela, "que teria prazer em viajar por mais tempo entre eles. Encontrei-os em geral honestos, bons e reservados... muito mais que qualquer outra nação que conheço."(43) Stoltze usou quase a mesma linguagem ao falar deles.

Os dayaks costumam ter apenas uma esposa e tratá-la bem. São muito sociáveis, e todas as manhãs o clã inteiro sai em grandes grupos para pescar, caçar ou cuidar dos jardins. Suas aldeias consistem em grandes cabanas, cada uma habitada por uma dúzia de famílias, às vezes por várias centenas de pessoas que vivem pacificamente juntas. Demonstram grande respeito por suas esposas e afeto pelos filhos. Quando um deles adoece, as mulheres o cuidam em turnos. Como regra, são muito moderados na comida e na bebida. Tal é o dayak em sua vida cotidiana real, distante da caricatura que reduz um povo inteiro a uma prática ritual violenta, e também distante da imagem hobbesiana de indivíduos entregues a impulsos sem freio.

1/1
Menu

Fazer anotação