Ajuda Mútua: Entre Nós XXII
Ao passar da vida pública para a vida privada do indivíduo moderno, Kropotkin encontra outro mundo imenso de ajuda e apoio mútuos, quase sempre despercebido pelos sociólogos por permanecer dentro do círculo estreito da família e da amizade pessoal.(17) Sob o sistema social presente, todos os laços de união entre habitantes da mesma rua ou vizinhança foram dissolvidos. Nos bairros ricos das grandes cidades, as pessoas vivem sem saber quem mora na porta ao lado. Nas vielas cheias, pelo contrário, todos se conhecem e são continuamente postos em contato recíproco.
Pequenas brigas seguem seu curso nessas vielas, como em qualquer lugar, mas agrupamentos formados por afinidades pessoais aparecem, e dentro deles a ajuda mútua é praticada em extensão que as classes mais ricas quase não imaginam. Basta observar as crianças de um bairro pobre brincando numa rua, num adro ou num terreno aberto para perceber que existe entre elas uma união estreita, apesar das brigas passageiras, e que essa união as protege de muitos perigos.
Quando uma criança pequena se inclina curiosa sobre a abertura de um ralo, outra grita que não fique ali, porque a febre mora no buraco. Quando alguém tenta subir um muro perigoso, outra avisa que o trem a matará se cair. Outra voz manda não chegar perto da vala, nem comer certas bagas venenosas. Essas são as primeiras lições recebidas pela criança que se junta aos companheiros ao ar livre. Quantas crianças, cujos lugares de brincar são as calçadas ao redor de moradias operárias, os cais e as pontes dos canais, seriam esmagadas por carroças ou afogadas em águas turvas sem esse apoio recíproco?
Quando um menino escorrega para uma vala sem proteção atrás do pátio do leiteiro, ou uma menina de rosto vivo acaba caindo no canal, o grupo infantil levanta tamanhos gritos que toda a vizinhança fica alerta e corre para socorrer. Depois vem a aliança das mães. Uma médica que vivia num bairro pobre dizia ser impossível imaginar quanto elas se ajudavam. Se uma mulher nada havia preparado, ou nada podia preparar, para o bebê que esperava, e isso acontecia muitas vezes, todas as vizinhas traziam alguma coisa para o recém-chegado.
Uma vizinha sempre cuidava das crianças, e outra aparecia para cuidar da casa enquanto a mãe permanecia de cama. O hábito era geral, lembrado por todos os que haviam vivido entre os pobres. De mil pequenas maneiras, as mães sustentavam umas às outras e estendiam seus cuidados a crianças que não eram suas. Algum treino, bom ou mau, decidam elas próprias, era necessário a uma senhora das classes ricas para passar por uma criança tremendo de frio e fome na rua sem notá-la. As mães das classes pobres não tinham esse treino. Não suportavam a visão de uma criança faminta. Precisavam alimentá-la, e alimentavam.