Ajuda Mútua: Povos Primitivos VIII
Muitos traços da vida dos povos primitivos permanecem um enigma para europeus. O alto desenvolvimento da solidariedade tribal e dos bons sentimentos com que tais povos se animam uns em relação aos outros poderia ser ilustrado por qualquer quantidade de testemunhos confiáveis. Também é certo que esses mesmos povos praticam infanticídio, que em alguns casos abandonam seus idosos e que obedecem cegamente às regras da vingança de sangue. É preciso então explicar a coexistência de fatos que, à mente europeia, parecem tão contraditórios à primeira vista. Kropotkin acaba de mencionar como o pai aleuta passa fome durante dias e semanas e entrega tudo o que é comestível ao filho, tal como a mãe bosquímana aceita a escravidão para seguir a criança. Poderia encher páginas com ilustrações das relações realmente ternas existentes entre povos primitivos e seus filhos.
Os viajantes mencionam continuamente esses fatos de passagem. Aqui se lê sobre o amor afetuoso de uma mãe. Ali se vê um pai correndo desesperado pela floresta e carregando nos ombros o filho mordido por uma serpente. Um missionário relata o desespero dos pais pela perda de uma criança que ele havia salvo alguns anos antes de ser imolada ao nascer. Aprende-se que as mães dos povos primitivos geralmente amamentam seus filhos até os quatro anos e que, nas Novas Hébridas, quando morre uma criança especialmente amada, a mãe ou a tia se mata para cuidar dela no outro mundo.(34) Fatos semelhantes aparecem às dezenas. Ao encontrar esses mesmos pais amorosos praticando infanticídio, somos obrigados a reconhecer que o hábito, quaisquer que tenham sido suas transformações posteriores, nasceu sob a pressão pura da necessidade, como obrigação para com a tribo e meio de criar as crianças já em crescimento.
Os povos primitivos, como regra, estão longe de "multiplicar-se sem freio", como escreveram alguns autores ingleses. Em vez disso, tomam todo tipo de medidas para diminuir a taxa de natalidade. Uma série inteira de restrições, que europeus certamente achariam extravagantes, é imposta para esse fim e rigorosamente obedecida. Apesar disso, tais povos não conseguem criar todos os filhos. Observou-se, contudo, que logo que conseguem aumentar seus meios regulares de subsistência, começam imediatamente a abandonar a prática do infanticídio. Em geral, os pais obedecem a essa obrigação com relutância, e, tão logo podem, recorrem a todos os tipos de compromissos para salvar a vida dos recém-nascidos. Como Elie Reclus, amigo de Kropotkin, indicou tão bem,(35) inventam dias felizes e infelizes de nascimento e poupam as crianças nascidas em dias felizes. Tentam adiar a sentença por algumas horas e depois dizem que, se o bebê viveu um dia, deve viver toda a sua vida natural.(36)
Eles escutam os gritos dos pequenos vindos da floresta e sustentam que, se ouvidos, anunciam desgraça para a tribo. Como não possuem casas de criação ou creches para se desfazer das crianças, cada pessoa recua diante da necessidade de executar a sentença cruel. Preferem expor o bebê na mata a tirar sua vida pela violência. A ignorância, distante da crueldade, mantém o infanticídio. Em lugar de moralizar os povos primitivos por meio de sermões, os missionários fariam melhor seguindo o exemplo de Veniaminoff, que todos os anos, até a velhice, cruzava o mar de Okhotsk em um barco miserável ou viajava com cães entre seus tchuktchis, fornecendo-lhes pão e instrumentos de pesca. Foi desse modo que realmente conseguiu deter o infanticídio.