Ajuda Mútua: Entre Nós VIII
Kropotkin reuniu exemplos dessa sobrevivência por meio de cartas vindas de diferentes partes da França. Numa aldeia do Ariège, quando o trigo de uma família está maduro e a família tem poucos braços, os vizinhos ajudam a cortá-lo, enquanto em outra região, quando uma moça pobre se casa, as mulheres da aldeia trazem linho, lã, utensílios e pequenos móveis, compondo pouco a pouco aquilo que seria impossível para sua casa reunir sozinha. Quando um habitante precisa de madeira, pede ao comum o direito de cortar algumas árvores, e os vizinhos ajudam no transporte.
Em certas aldeias do Charente, a velha prática chamada l'emprount continua a existir: quando uma família precisa de utensílios, sementes, animais ou algum instrumento de trabalho, recorre aos vizinhos e recebe emprestado o que falta, muitas vezes sem contrato escrito. Em outras partes, a fonte, o forno, o lavadouro, o moinho ou a pastagem comum dão ocasião a obrigações recíprocas, pois o que pertence a todos exige que todos acudam quando o uso coletivo pede reparo.
Na Bretanha e no oeste da França, as operações de colheita ainda conservam formas comunitárias. O trabalho de ceifa, transporte, malhação e vindima é frequentemente acompanhado por auxílios de vizinhança, e o costume de prestar ajuda aparece como dever moral, não como serviço contratado. O dono do campo oferece comida, bebida e festa, enquanto a aldeia oferece braços. A troca não é cálculo comercial de salários. É parte de uma vida em que cada família sabe que amanhã poderá precisar da mesma ajuda.
O mesmo espírito aparece em situações de infortúnio, quando uma casa pega fogo e os vizinhos correm para salvar móveis, animais e ferramentas, quando o gado de uma viúva ou de um velho fica sem pasto e se procura lugar para ele, ou quando uma família pobre fica sem pão e a aldeia age antes de qualquer instituição distante. A ajuda chega pela porta próxima, sob a forma de farinha, trabalho, empréstimo ou alimento compartilhado, compondo uma rede de obrigações discretas que vale para a vida rural mais que muitas instituições oficiais.
Muitos desses costumes existem sem nome geral, justamente porque fazem parte do curso normal da vida e ficam fora dos códigos, raramente entram nas estatísticas, sustentando a aldeia em todos os pontos em que a família isolada falharia. A velha comunidade, legalmente mutilada, reaparece em pequenos atos repetidos: no empréstimo de um carro, na guarda de animais, no reparo de uma ponte, no transporte de madeira, na proteção das colheitas e na partilha de ferramentas. A continuidade é menos visível que uma instituição formal, e por isso mesmo é mais profunda.
Esse material mostra que a destruição da propriedade comunal não destruiu a sociabilidade que a havia criado. O Estado podia confiscar terras, substituir assembleias por conselhos vigiados, controlar prefeitos e síndicos, multiplicar autorizações, impor papéis e prazos. O que ele não conseguia fazer era abolir a necessidade diária de ajuda recíproca entre pessoas que viviam lado a lado, dependentes da mesma água, das mesmas estradas, dos mesmos pastos, dos mesmos animais e do mesmo clima.