Ajuda Mútua: Entre Nós XVII
A cooperação, especialmente na Grã-Bretanha, era frequentemente descrita como individualismo por ações, e no estado em que se encontrava então havia tendência real a produzir certo egoísmo cooperativo, dirigido tanto contra a comunidade em geral quanto entre os próprios cooperadores. Sua origem, contudo, teve caráter essencialmente ligado à ajuda mútua. Ainda no tempo de Kropotkin, seus defensores mais ardentes estavam persuadidos de que a cooperação conduzia a humanidade a um estágio mais harmônico das relações materiais.
Bastava permanecer algum tempo nos redutos fortes da cooperação no norte da Inglaterra para perceber que grande parte dos membros comuns compartilhava essa fé. Muitos perderiam o interesse pelo movimento se essa convicção desaparecesse. Kropotkin reconhece que, nos anos anteriores, ideais mais amplos de bem geral e de solidariedade entre produtores começavam a circular entre os cooperadores. Havia também uma tendência a estabelecer relações melhores entre os proprietários das oficinas cooperativas e os trabalhadores.
A importância da cooperação na Grã-Bretanha, na Holanda e na Dinamarca era conhecida. Na Alemanha, especialmente no Reno, as sociedades cooperativas já eram fator importante da vida industrial.(11) A Rússia oferecia talvez o melhor campo para estudar a cooperação sob infinita variedade de aspectos. Ali, ela era crescimento natural, herança da Idade Média. Enquanto uma sociedade cooperativa formal precisaria enfrentar muitas dificuldades legais e suspeitas oficiais, a cooperação informal, o artel, constituía a própria substância da vida camponesa russa.
A história da formação da Rússia e da colonização da Sibéria era a história dos artels ou guildas de caça e comércio, seguidos por comunidades aldeãs. No tempo de Kropotkin, o artel aparecia em toda parte: entre grupos de dez a cinquenta camponeses vindos da mesma aldeia para trabalhar numa fábrica, em todos os ofícios da construção, entre pescadores e caçadores, entre condenados a caminho da Sibéria e dentro dela, entre carregadores ferroviários, mensageiros da Bolsa, trabalhadores da alfândega, mensageiros urbanos das capitais e em todas as indústrias aldeãs que ocupavam milhões de homens.
Do alto ao baixo do mundo do trabalho, em formas permanentes ou temporárias, para produção e consumo, o artel assumia todas as feições possíveis. Ele reunia homens que precisavam agir em comum sem aparato estatal, sem estatutos pesados e sem tutela oficial. A sua força vinha justamente da simplicidade: responsabilidade comum, eleição de um ancião ou chefe, divisão de ganhos e gastos, confiança interna e reputação coletiva diante de contratantes e vizinhos.