Ajuda Mútua: Entre Nós II
Antes de submeter-se por três séculos à autoridade absorvente do Estado, as massas populares fizeram uma tentativa formidável de reconstruir a sociedade sobre a antiga base da ajuda e do apoio mútuos. Sabe-se hoje que o grande movimento da Reforma foi algo maior que uma revolta contra os abusos da Igreja católica. Trazia também um ideal construtivo, e esse ideal era a vida em comunidades livres e fraternas.
Os escritos e sermões dos primeiros tempos que encontraram maior resposta entre as massas estavam impregnados de ideias de fraternidade material e social entre os homens. Os Doze Artigos e profissões de fé semelhantes, difundidos entre camponeses e artesãos alemães e suíços, defendiam o direito de cada pessoa interpretar a Bíblia segundo seu entendimento próprio, e ao mesmo tempo exigiam que as terras comunais fossem restituídas às comunidades aldeãs e que as servidões feudais fossem abolidas. Em toda parte aludiam à fé verdadeira, isto é, a uma fé de fraternidade.
Ao mesmo tempo, dezenas de milhares de homens e mulheres aderiram às fraternidades comunistas da Morávia, entregando-lhes todos os seus bens e vivendo em numerosos assentamentos prósperos, construídos sobre os princípios do comunismo.(1) O movimento tinha amplitude popular e continha uma resposta direta à miséria produzida pela velha ordem senhorial e pela nova concentração estatal. Era uma tentativa de fazer reviver, sob linguagem religiosa, a vida comunal que durante séculos sustentara aldeias, ofícios e cidades.
Somente massacres em grande escala puderam deter esse movimento amplamente espalhado. Foi pela espada, pelo fogo e pelo suplício que os jovens Estados asseguraram sua primeira vitória decisiva sobre as massas populares.(2) A tentativa comunal da Reforma foi esmagada, e com ela também foi contido, por algum tempo, o esforço de dar nova expressão social ao princípio antigo da ajuda mútua. Ainda que derrotada, essa corrente mostrou que as instituições comunais destruídas pelas monarquias e pelos senhores conservavam raízes profundas no povo.