Ajuda Mútua: Conclusão II
O progresso industrial que costuma ser atribuído aos séculos recentes também possui raízes mais antigas. As descobertas do século XV, especialmente no campo marítimo, só puderam frutificar porque encontraram acumulada a experiência técnica das cidades medievais. A produção de ferramentas, a precisão dos ofícios, a organização das oficinas, o comércio urbano, a habilidade dos trabalhadores e a tradição de aprendizado permitiram que novas descobertas fossem transformadas em prática. Até a máquina a vapor, que marcou época posterior, dependia de uma longa preparação coletiva feita por gerações anônimas.
Kropotkin recorda que Watt levou cerca de vinte anos para tornar sua invenção aproveitável, em parte porque encontrou no século XVIII dificuldades que teriam sido menores numa cidade medieval ativa como Florença ou Bruges. Faltavam artesãos bastante numerosos, experimentados e habituados a colaborar em torno de problemas técnicos. Essa observação muda o modo de ler a história do progresso. A invenção isolada raramente basta. Para que uma ideia se torne força real, precisa de mãos treinadas, oficinas, hábitos de cooperação, confiança, transmissão de conhecimento e um meio social capaz de recebê-la.
Por isso, a tentativa de atribuir o avanço industrial à luta de todos contra todos desfaz-se diante dos fatos. A rivalidade existe e pode estimular certos esforços, no entanto seu alcance é estreito quando comparado com a força criadora da cooperação. As maiores realizações humanas exigem coordenação, continuidade, memória comum e ajuda entre pessoas que compartilham tarefas. Onde cada um está entregue a si, a invenção se perde, o trabalho recomeça do zero e as conquistas não se acumulam. Onde há vida associada, a experiência de um passa a servir de ponto de partida para muitos.
As consequências morais dessa conclusão são amplas. A ajuda mútua não pertence somente ao campo dos costumes agradáveis ou das virtudes privadas. Ela constitui o fundamento de uma ética apoiada na própria história da vida. Desde os animais sociáveis até as sociedades humanas mais complexas, a sobrevivência e o desenvolvimento dependeram de simpatia ativa, socorro, lealdade, justiça comum e hábitos de partilha. A moral, vista desse ponto, não nasce de mandamento externo. Nasce da necessidade vital de conviver e de manter relações que permitam ao grupo inteiro continuar.
Também por esse motivo, as religiões, mesmo quando surgiram em períodos de decadência da ajuda mútua, retomaram muitas vezes esse princípio central. Pregaram compaixão, perdão, proteção dos fracos, hospitalidade e dever de auxílio. Seus primeiros defensores vieram, com frequência, das faixas mais pobres da população, exatamente onde a interdependência diária era mais visível. A sociedade oficial podia celebrar poder, riqueza e dominação. Nas ruas humildes, nos lares estreitos e nos grupos perseguidos, a necessidade de apoio recíproco continuava ensinando outra lei.
O avanço moral da humanidade pode ser lido como ampliação gradual do círculo de solidariedade. Primeiro, a ajuda era de clã para clã, limitada aos parentes próximos. Depois se estendeu à tribo, à aldeia, à cidade, à corporação, à confederação, ao povo e, por fim, à humanidade. Cada etapa encontrou resistências, recaídas e violências. Apesar disso, a ideia de que a obrigação moral não termina na família nem na nação tornou-se uma das conquistas mais altas da história humana. O homem que ajuda um desconhecido afirma, em ato simples, uma verdade construída por toda a evolução social.
Kropotkin encerra sua argumentação apontando que o apoio mútuo teve papel principal no desenvolvimento progressivo do mundo animal e da humanidade. Não foi a única força em operação, pois houve luta, ambição, conflito e dor. Mesmo com esse quadro, sempre que a vida avançou de modo firme, o avanço se apoiou em cooperação. A inteligência cresceu melhor onde houve comunicação. A coragem tornou-se mais fecunda onde havia confiança. A liberdade ganhou corpo onde os homens puderam associar-se sem perder a própria dignidade.
Essa conclusão não pede sentimentalismo. Pede apenas que se leia a natureza e a história sem apagar metade dos fatos. A ajuda mútua é tão antiga quanto a vida social e tão necessária quanto qualquer instinto de defesa. Ela permitiu resistir, aprender, criar, cuidar dos fracos, conservar descobertas e preparar novos passos. Por isso, quando se buscam as forças capazes de conduzir a humanidade a formas superiores de existência, a resposta de Kropotkin permanece clara: o futuro pertence menos à disputa sem freio do que à ampliação consciente dos vínculos de apoio, liberdade e responsabilidade comum.