Ajuda Mútua: Entre Nós X
Seria fácil multiplicar esses exemplos com casos da Itália, da Espanha, da Dinamarca e de outros países, indicando em cada um deles traços próprios de vida comunal. As populações eslavas da Áustria e da península balcânica, entre as quais a família composta ou casa indivisa ainda existe, também mereceriam exame especial.(34) Kropotkin passa então para a Rússia, onde a mesma tendência de apoio mútuo assume formas novas e inesperadas.
Ao tratar da comunidade aldeã russa, há uma vantagem importante: existe uma massa imensa de materiais reunidos por inquéritos de casa em casa, feitos por vários zemstvos, ou conselhos distritais, e abrangendo quase vinte milhões de camponeses em diferentes partes do país.(35) Desse conjunto de provas, duas conclusões principais podem ser tiradas. Na Rússia central, onde cerca de um terço dos camponeses havia sido levado à ruína por impostos pesados, lotes pequenos de terra pobre, arrendamentos opressivos e cobrança fiscal severa depois de más colheitas, houve nos primeiros vinte e cinco anos após a emancipação dos servos uma tendência clara à formação de propriedade individual dentro das comunidades aldeãs.
Muitos camponeses empobrecidos e sem cavalos abandonaram seus lotes, que frequentemente passavam para camponeses mais ricos, com rendas adicionais vindas do comércio, ou para negociantes de fora, interessados sobretudo em cobrar arrendamentos pesados dos próprios camponeses. A lei de resgate de terras de 1861 também possuía uma falha que facilitava a compra de terras camponesas por preço muito baixo,(36) e os funcionários do Estado usavam quase sempre sua influência em favor da propriedade individual contra a posse comunal.
Durante os vinte anos anteriores ao livro, um forte vento de oposição à apropriação individual da terra voltara a soprar nas aldeias da Rússia central. A massa dos camponeses situada entre os ricos e os muito pobres fazia esforços persistentes para sustentar a comunidade aldeã. Nas estepes férteis do sul, então a parte mais povoada e mais rica da Rússia europeia, a colonização havia ocorrido no século XIX sob regime de propriedade ou ocupação individual, sancionado pelo Estado. A introdução de métodos agrícolas aperfeiçoados e de maquinaria levou, pouco a pouco, os próprios proprietários camponeses a transformar a propriedade individual em posse comunal, e naquele celeiro da Rússia surgiram muitas comunidades aldeãs espontâneas de origem recente.(37)
A Crimeia e a região continental situada ao norte dela, a província de Taurida, fornecem uma ilustração excelente desse movimento. Depois da anexação de 1783, esse território começou a ser povoado por grandes russos, pequenos russos, russos brancos, cossacos, homens livres e servos fugitivos, vindos de todos os cantos da Rússia, isoladamente ou em pequenos grupos. Primeiro dedicaram-se à criação de gado. Quando começaram a cultivar o solo, cada um lavrava tanto quanto podia.
Com a continuação da imigração e a introdução de arados melhores, a terra tornou-se muito procurada, e disputas amargas surgiram entre os colonos. Elas duraram anos, até que esses homens, antes sem vínculos recíprocos, chegaram à ideia de acabar com as disputas pela introdução da propriedade aldeã comunal. Decidiram que a terra possuída individualmente passaria a ser propriedade comum, e começaram a distribuí-la e redistribuí-la segundo as regras habituais da comunidade aldeã. O movimento cresceu muito, e os estatísticos de Taurida encontraram, em pequeno território, cento e sessenta e uma aldeias nas quais a propriedade comunal havia sido introduzida pelos próprios camponeses proprietários, sobretudo entre 1855 e 1885, em lugar da propriedade individual.