A Morte da Águia Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 9 de 159
Obra Menu

A Morte da Águia

A bordo vinha uma águia. Era um presente

Que um potentado, — um certo rei do Oriente,

Mandava a outro: — um mimo soberano.

Era uma águia real. Entre a sombria

Grade da jaula o seu olhar luzia,

Profundo e triste como o olhar humano.

Aos balanços do barco ela curvava

Ao níveo colo a fronte que cismava...

E enquanto as ondas túrbidas gemiam

Ao som do vento — em lúgubres lamentos,

Ela pensava nos longínquos ventos

Que do Himalaia os píncaros varriam.

Fora uma infame e traiçoeira bala,

Que do régio fuzil negra vassala,

Invisível — uma asa lhe partira:

Cheia de luz, tranquila, majestosa,

Dobrando a fronte branca e poderosa,

Aos pés de um rei a águia real caíra.

Os bonzos vis, proféticos doutores,

Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,

Que um venenoso bálsamo tentava

Apaziguar em vão, — diziam rindo:

“Não há no mundo um exemplar mais lindo:

Vale um império!” — E a águia agonizava.

Um dia, enfim, o animal valente

Resistindo aos martírios, — largamente

Respirou a amplidão. A asa possante

Abrir tentou de novo. Aberta estava

A jaula colossal que o esperava:

Forçoso era partir. Desde esse instante,

Muda, sombria, a águia pensativa,

Solene mártir, vítima cativa,

Terror dos vis, e símbolo dos bravos,

Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa,

Longe, porém, da corte vergonhosa

Desse covarde e baixo rei de escravos.

Pediu a morte a Deus, o cataclismo,

As convulsões elétricas do abismo,

As batalhas do ar! Morrer num grito

Vibrante, imenso, heroico, soberano,

E rolar sobre as ondas do Oceano,

Como um titão caído do infinito.

Morrer livre, cercada de vitórias,

Como suas asas — pavilhão de glórias –

Inundadas da luz que o sol espalha:

Ter o fundo do mar por catacumba,

As orações do vento que retumba,

E as ferventes espumas por mortalha.

Por isso, melancólica, tristonha,

Como um gigante mórbido que sonha,

Fitava, às vezes, o revolto Oceano

Com esse olhar nublado e delirante,

Com que saudava a César triunfante

O moribundo gladiador romano.

O comandante — urso do mar bondoso –

Disse um dia ao escravo planturoso,

Ao portador do imperial presente:

“Leve-a ao convés. Verá que esse desmaio

Basta para apagá-lo um brando raio

Do largo sol no rúbido oriente”.

Subiu então a jaula ao tombadilho:

Do nato dia o purpurino brilho

Salpicava de luz o céu nevado...

E a águia, elevando a pálpebra dormente,

Abriu as asas ao clarão nascente

Como as hastes de um leque iluminado.

O mar gemia, lôbrego e espumante,

Açoitando o navio; — além — distante,

Nas flamejantes bordas do horizonte,

As matutinas névoas que ondulavam,

Em suas várias curvas figuravam

Os largos flancos triunfais de um monte.

“Abra-lhe a porta da prisão” (ridente

O comandante disse): “Esta corrente

Para conter-lhe o voo é mais que forte:

Voar! pobre infeliz! causa piedade!

Dê-lhe um momento de ar e liberdade,

Único meio de a salvar da morte”.

Quando a porta se abriu, — como uma tromba,

Como o invencível furacão que arromba

Da tempestade as negras barricadas,

A águia lançou por terra o escravo pasmo,

E, desprendendo um grito de sarcasmo,

Moveu as asas soltas e espalmadas.

Pairou sobre o navio — imensa e bela –

Como uma branca, uma isolada vela

A demandar um livre e novo mundo;

Crescia o sol nas nuvens refulgentes,

E como um turbilhão de águias frementes,

Zunia o vento na amplidão, — profundo.

Ela lutou, em vão! Nova agonia

Sufocava-a. O escravo lhe estendia

Os miseráveis e covardes braços;

Nu o Oceano ao longe cintilava,

E a rainha do ar, em vão, buscava

Onde pousar os grandes membros lassos.

Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,

Alçando mais os voos, e afogando

Na luz do sol a fronte alvinitente,

Ébria de espaço, ébria de liberdade,

Como um astro que cai da imensidade,

Afundou-se nas ondas de repente.

1/1
Menu

Fazer anotação