A Morte da Águia
A bordo vinha uma águia. Era um presente
Que um potentado, — um certo rei do Oriente,
Mandava a outro: — um mimo soberano.
Era uma águia real. Entre a sombria
Grade da jaula o seu olhar luzia,
Profundo e triste como o olhar humano.
Aos balanços do barco ela curvava
Ao níveo colo a fronte que cismava...
E enquanto as ondas túrbidas gemiam
Ao som do vento — em lúgubres lamentos,
Ela pensava nos longínquos ventos
Que do Himalaia os píncaros varriam.
Fora uma infame e traiçoeira bala,
Que do régio fuzil negra vassala,
Invisível — uma asa lhe partira:
Cheia de luz, tranquila, majestosa,
Dobrando a fronte branca e poderosa,
Aos pés de um rei a águia real caíra.
Os bonzos vis, proféticos doutores,
Sondando-lhe a ferida e as cruas dores,
Que um venenoso bálsamo tentava
Apaziguar em vão, — diziam rindo:
“Não há no mundo um exemplar mais lindo:
Vale um império!” — E a águia agonizava.
Um dia, enfim, o animal valente
Resistindo aos martírios, — largamente
Respirou a amplidão. A asa possante
Abrir tentou de novo. Aberta estava
A jaula colossal que o esperava:
Forçoso era partir. Desde esse instante,
Muda, sombria, a águia pensativa,
Solene mártir, vítima cativa,
Terror dos vis, e símbolo dos bravos,
Pediu a morte a Deus, — pediu-a ansiosa,
Longe, porém, da corte vergonhosa
Desse covarde e baixo rei de escravos.
Pediu a morte a Deus, o cataclismo,
As convulsões elétricas do abismo,
As batalhas do ar! Morrer num grito
Vibrante, imenso, heroico, soberano,
E rolar sobre as ondas do Oceano,
Como um titão caído do infinito.
Morrer livre, cercada de vitórias,
Como suas asas — pavilhão de glórias –
Inundadas da luz que o sol espalha:
Ter o fundo do mar por catacumba,
As orações do vento que retumba,
E as ferventes espumas por mortalha.
Por isso, melancólica, tristonha,
Como um gigante mórbido que sonha,
Fitava, às vezes, o revolto Oceano
Com esse olhar nublado e delirante,
Com que saudava a César triunfante
O moribundo gladiador romano.
O comandante — urso do mar bondoso –
Disse um dia ao escravo planturoso,
Ao portador do imperial presente:
“Leve-a ao convés. Verá que esse desmaio
Basta para apagá-lo um brando raio
Do largo sol no rúbido oriente”.
Subiu então a jaula ao tombadilho:
Do nato dia o purpurino brilho
Salpicava de luz o céu nevado...
E a águia, elevando a pálpebra dormente,
Abriu as asas ao clarão nascente
Como as hastes de um leque iluminado.
O mar gemia, lôbrego e espumante,
Açoitando o navio; — além — distante,
Nas flamejantes bordas do horizonte,
As matutinas névoas que ondulavam,
Em suas várias curvas figuravam
Os largos flancos triunfais de um monte.
“Abra-lhe a porta da prisão” (ridente
O comandante disse): “Esta corrente
Para conter-lhe o voo é mais que forte:
Voar! pobre infeliz! causa piedade!
Dê-lhe um momento de ar e liberdade,
Único meio de a salvar da morte”.
Quando a porta se abriu, — como uma tromba,
Como o invencível furacão que arromba
Da tempestade as negras barricadas,
A águia lançou por terra o escravo pasmo,
E, desprendendo um grito de sarcasmo,
Moveu as asas soltas e espalmadas.
Pairou sobre o navio — imensa e bela –
Como uma branca, uma isolada vela
A demandar um livre e novo mundo;
Crescia o sol nas nuvens refulgentes,
E como um turbilhão de águias frementes,
Zunia o vento na amplidão, — profundo.
Ela lutou, em vão! Nova agonia
Sufocava-a. O escravo lhe estendia
Os miseráveis e covardes braços;
Nu o Oceano ao longe cintilava,
E a rainha do ar, em vão, buscava
Onde pousar os grandes membros lassos.
Sobre o barco pairou ainda, — e alçando,
Alçando mais os voos, e afogando
Na luz do sol a fronte alvinitente,
Ébria de espaço, ébria de liberdade,
Como um astro que cai da imensidade,
Afundou-se nas ondas de repente.