Lenda Antiga Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 159 de 159
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Lenda Antiga

A Velhice e a Mocidade

Nos umbrais da Eternidade

Viram-se um dia. A Velhice

Deteve a outra e lhe disse

Com toda a serenidade

E a mais perfeita meiguice:

“Tu és, encanto adorado,

O perfil do meu passado

E o meu primitivo encanto:

Devo explicar-te portanto

Da vida o mal condenado

E a negra origem do pranto”.

A Mocidade viçosa

Escuta maliciosa:

Prossegue a Velhice: “Evita

O amor que as veias excita,

E a fada misteriosa

Que dentro d’alma se agita:

As bocas rubras e belas

De mil milhões de donzelas

Mais terríveis que a ambrosia...”

— “E depois? depois?” — “Num dia,

Numa noite em que as estrelas

E a branca Lua erradia

Vogarem pelos espaços,

Sentirás talvez os braços

Do pecado traiçoeiro:

Cautela! no mundo inteiro

O inferno semeia laços

Ao pé incauto e rasteiro...”

A Mocidade imprudente

Inquieta, febril, contente,

Disse à velha parladora:

“Deus vos merceie, Senhora,

E vos dê eternamente

A santa luz redentora:

Deus vos pague estes instantes

De surpresas incessantes,

De gozo vivo, fecundo,

E de delírio profundo”.

Abriu as asas brilhantes

E — rindo — baixou ao mundo.

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