A Sertaneja Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 140 de 159
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A Sertaneja

Eu sou a virgem morena,

Robusta, lesta, pequena

Como a cabrita montês;

Vivo cercada de amores,

E Aquele que fez as flores,

Irmã das flores me fez.

Vinde ver, ó boiadeiros,

Meus vestidos domingueiros,

Meus braços limpos e nus:

Ah! vinde ver-me enfeitada

Com minha saia engomada,

Com meus tamancos azuis.

Sertanejos, sertanejos,

Pedis debalde os meus beijos,

Em vão pedis meu amor!

Eu sou a agreste cotia,

Que se expõe à pontaria,

E ri-se do caçador!

A sertaneja morena

Bonita, forte, pequena,

Não cai na armadilha, não:

A jaçanã corre e voa

Quando vê sobre a lagoa

A sombra do gavião.

Sou órfã, donzela e pobre,

Vistosa telha não cobre

O lar que herdei de meus pais:

Que importa? Vivo contente:

Ser moça, bela e inocente

É ter fortuna de mais!

Quem tece e protege o ninho,

Quem defende o passarinho,

Quem das mãos espalha o bem,

Quem fez o sol e as estrelas,

Dando a virtude às donzelas

Deu-lhes a força também.

A virgem nunca se esquece

Da mais tosca e simples prece

Que voa ao seio de Deus:

Por cada infeliz que chora

Abre na terra uma aurora,

Crava uma estrela nos céus.

Sertanejos, sertanejos,

Podeis morrer de desejos

Que eu não me temo de vós!

A sertaneja faceira

É mais que a paca ligeira,

Mais que a andorinha veloz.

Sou viva, arisca, medrosa,

Bem como a onça raivosa

Pronta ao mais leve rumor

No meu cabelo selvagem

Sente-se a morna bafagem

Das matas virgens em flor.

No samba quem puxa a fieira

Melhor, melhor que a trigueira

Maravilha dos sertões?

Que peito mais brando anseia,

Quem pula, quem sapateia,

Quem pisa mais corações?

Ai gentes! ai boiadeiros!

Não sois decerto os primeiros

Que o meu olhar cativou:

Desta morena a doçura

É como a frecha segura:

Peito que encontra — rasgou!

Minha rede é perfumada

Como a folha machucada

Da verde-malva maçã:

Nela me embalo sonhando,

E dela salto cantando

Quando vem rindo a manhã.

Sonho com jambos e rosas,

Co’as madrugadas formosas

Deste formoso sertão:

Meu sonho é como a canoa,

Que voa, que voa e voa

Nas águas do ribeirão.

Trago no seio guardado

O rosário abençoado

Que minha mãe me deixou:

Ai! gentes! ai! pastorinhas!

Se estão alvas as continhas

Foi que meu pranto as lavou.

Quem é mais feliz na terra?

Quem mais delícias encerra,

Quem mais feitiços contém?

Vem, moreno boiadeiro,

Desafiar meu pandeiro

Com tua guitarra, — vem!

Raiou domingo! Que festa!

Que barulho na floresta!

Quanto rumor no sertão!

Que céu! que matas cheirosas!

Quanto perfume nas rosas,

E quantas rosas no chão!

Vinde ouvir-me na guitarra:

Não há nas brenhas cigarra

Que me acompanhe, — não há!

Trazei, trazei, boiadeiros,

As violas, os pandeiros,

Os búzios, o maracá.

Eu sou a virgem morena

Robusta, lesta, pequena

Como a cabrita montês:

Vivo cercada de amores,

E Aquele que fez as flores

Irmã das flores me fez.

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