História de um Cão Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 71 de 159
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História de um Cão

— “Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:

Magro, asqueroso, revoltante, imundo;

Para dizer numa palavra tudo

Foi o mais feio cão que houve no mundo.

Recebi-o das mãos de um camarada

Na hora da partida. O cão gemendo

Não me queria acompanhar por nada:

Enfim — mau grado seu — o vim trazendo.

O meu amigo cabisbaixo, mudo

Olhava-o... O sol nas ondas se abismava...

Adeus! — me disse, — e ao afagar Veludo

Nos olhos seus o pranto borbulhava.

“Trata-o bem. Verás como rasteiro

“Te indicará os mais sutis perigos;

“Adeus! E que este amigo verdadeiro

“Te console no mundo ermo de amigos”.

Veludo a custo habituou-se à vida

Que o destino de novo lhe escolhera;

Sua rugosa pálpebra sentida

Chorava o antigo dono que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante,

Febril, convulso, trêmulo, agitando

A nua cauda — caminhava errante

À luz da lua — tristemente uivando.

Toussenel, Figuier e a lista imensa

Dos modernos zoólogos doutores

Dizem que o cão é um animal que pensa:

Talvez tenham razão esses senhores.

Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,

Cinco meses depois, do meu amigo

Um envelope fartamente cheio:

Era uma carta. Carta! era um artigo

Contendo a narração miúda e exata

Da travessia. Dava-me importantes

Notícias do Brasil e de La Plata,

Falava em rios, árvores gigantes;

Gabava o steamer que o levou; — dizia

Que ia tentar inúmeras empresas:

Contava-me também que a bordo havia

Mulheres joviais — todas francesas;

Assombrava-se muito da ligeira

Moralidade que encontrou a bordo:

Citava o caso de uma passageira...

Mil coisas mais de que me não recordo.

Finalmente, por baixo disso tudo,

Num posiscritum do melhor cursivo

Recomendava “o pobre do Veludo”

Pedindo a Deus que “o conversasse vivo”.

Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento

Me contemplava, e — creia que é verdade —

Vi comovido, vi nesse momento

Seus olhos gotejarem de saudade.

Depois lambeu-me as mãos humildemente,

Estendeu-se a meus pés silencioso

Movendo a cauda, — e adormeceu contente

Farto de um puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia

Vi-me livre daquele companheiro:

Para nada Veludo me servia,

Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.

E respirei! — Graças a Deus! já posso

— Dizia eu — viver neste bom mundo

Sem ter que dar diariamente um osso

A um bicho vil, a um feio cão imundo.

Gosto dos animais, porém prefiro

A essa raça baixa e aduladora

Um alazão inglês de sela ou tiro,

Ou uma gata branca cismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia

E a negra noite amortalhava tudo,

Senti que à minha porta alguém batia:

Fui ver quem era, abri. Era Veludo.

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,

Farejou toda a casa satisfeito;

E — de cansado — foi rolar dormindo

Como uma pedra — junto do meu leito.

Praguejei furioso. Era execrável

Suportar esse hóspede importuno

Que me seguia como o miserável

Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso

Dizê-lo em alta voz e confessá-lo:

Para livrar-me desse cão leproso

Havia um meio só: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos,

Ao longe o mar na solidão gemendo,

Arrebentava em uivos e lamentos...

De instante a instante ia o tufão crescendo.

Chamei Veludo, ele seguiu-me. Entanto

A tempestade em fúrias me arrancava

Dos frios ombros o sombrio manto

E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,

Contra as ondas coléricas vogamos;

Dava-me força o torvo pensamento:

Tomei um remo — e com furor remamos.

Veludo à proa olhava-me choroso

Como o cordeiro no final momento:

Embora! Era fatal! Era forçoso

Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços

E arremessei-o às ondas de repente...

Ele moveu gemendo os membros lassos

Lutando contra a morte. Era pungente.

Voltei a terra — entrei em casa. O vento

Zunia sempre na amplidão — profundo,

E pareceu-me ouvir o atroz lamento

De Veludo nas ondas moribundo.

Mas, ao despir dos ombros meus o manto,

Notei — oh grande dor! — haver perdido

Uma relíquia que eu prezava tanto!

Era um cordão de prata: — eu tinha-o unido

Contra o meu coração constantemente

E o conservava no maior recato,

Pois minha mãe me dera essa corrente

E, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caíra além no mar profundo

No eterno abismo que devora tudo;

E foi o cão, foi esse cão imundo

A causa do meu mal! Ah! se Veludo

Duas vidas tivera, — duas vidas

Eu arrancara àquela besta morta!

E aquelas vis entranhas corrompidas!

Nisto senti uivar à minha porta.

Corri, — abri. Era Veludo! Arfava:

Estendeu-se a meus pés, — e docemente

Deixou cair da boca, que espumava,

A medalha suspensa da corrente.

Fora crível, ó Deus? — Ajoelhado

Junto do cão, — estupefato, absorto,

Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;

Sacudi-o, chamei-o! Estava morto”.

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