Revelação
Queres saber por que te amei e quando
Começou este amor? — Lembras-te ainda
Daquela tarde vaporosa e linda?...
Ia o sol nas montanhas resvalando.
E, enquanto o céu de púrpura raiado,
Como as asas de um pálio nos cobria,
Enquanto o teu olhar calmo Luzia
E me cercava de um fulgor sagrado;
Alguém turbou o virginal sossego
A delícia melhor de nossa vida:
Era uma multidão baixa e perdida
Rindo e ultrajando as nobres cãs de um cego.
O miserável quase moribundo
Faminto, roto, frio e macilento,
Abria as magras mãos nesse momento,
Pedindo um pão, um negro pão ao mundo.
Tu, como os anjos que o Senhor envia
Às desgraçadas vítimas da fome,
Tu, ó querida, cujo belo nome
Soa melhor que o nome de Maria,
Atravessaste a multidão pasmada
E dessa mão perfeita e carinhosa,
Como o rocio que alimenta a rosa,
Eu vi cair... Ó alma enamorada,
Não me perguntes mais se te amo e quando
Começou este amor... Lembra-te ainda
Daquela tarde vaporosa e linda:
Ia o sol nas montanhas resvalando.