Revelação Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 66 de 159
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Revelação

Queres saber por que te amei e quando

Começou este amor? — Lembras-te ainda

Daquela tarde vaporosa e linda?...

Ia o sol nas montanhas resvalando.

E, enquanto o céu de púrpura raiado,

Como as asas de um pálio nos cobria,

Enquanto o teu olhar calmo Luzia

E me cercava de um fulgor sagrado;

Alguém turbou o virginal sossego

A delícia melhor de nossa vida:

Era uma multidão baixa e perdida

Rindo e ultrajando as nobres cãs de um cego.

O miserável quase moribundo

Faminto, roto, frio e macilento,

Abria as magras mãos nesse momento,

Pedindo um pão, um negro pão ao mundo.

Tu, como os anjos que o Senhor envia

Às desgraçadas vítimas da fome,

Tu, ó querida, cujo belo nome

Soa melhor que o nome de Maria,

Atravessaste a multidão pasmada

E dessa mão perfeita e carinhosa,

Como o rocio que alimenta a rosa,

Eu vi cair... Ó alma enamorada,

Não me perguntes mais se te amo e quando

Começou este amor... Lembra-te ainda

Daquela tarde vaporosa e linda:

Ia o sol nas montanhas resvalando.

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