O Piano
Febril, nervosa, exausta, ela cosia
Ferindo os dedos no trabalho insano;
Tinha um só desejo: era um piano:
Por isso a pobre nem sequer dormia.
Ganhou chorando a insólita quantia,
Depois de dias longos como um ano,
Que lhe exigiu a usura de um tirano
Judeu que nessas ilusões não cria.
Quando afinal a escura água-furtada
Veio adornar o mimo cobiçado,
Como a rosa num túmulo plantada,
Com o seio ardente, o rosto desmaiado,
Ela pousou-lhe a mão enregelada
E morreu a sorrir sobre o teclado.