O Piano Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 63 de 159
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O Piano

Febril, nervosa, exausta, ela cosia

Ferindo os dedos no trabalho insano;

Tinha um só desejo: era um piano:

Por isso a pobre nem sequer dormia.

Ganhou chorando a insólita quantia,

Depois de dias longos como um ano,

Que lhe exigiu a usura de um tirano

Judeu que nessas ilusões não cria.

Quando afinal a escura água-furtada

Veio adornar o mimo cobiçado,

Como a rosa num túmulo plantada,

Com o seio ardente, o rosto desmaiado,

Ela pousou-lhe a mão enregelada

E morreu a sorrir sobre o teclado.

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