Auto-da-fé
Queimai-vos cartas, expressões mentidas
Dum tempo infausto que não volta mais!
Flores mirradas, abrasai-vos todas!
Ao fogo! ao fogo, tentações fatais!
Tranças manchadas por seu lábio impuro,
Ardei também nesse voraz clarão!
Falsas memórias e relíquias falsas,
As labaredas vosso asilo são.
Eis o retrato da infiel: tão calma
Como a inocência e como um anjo está!
Queima-te, imagem fementida e torpe!
Varra-se a luz dos olhos teus! Mas ah!
Dá-me que eu possa contemplá-lo ainda,
Fogo insensível de infernal clarão:
Como estes olhos eloquentes falam!
Como repousa esta serena mão!
Ei-lo! Devora-o, mas devora-o rápido,
Pois meu martírio e meu amor são tais,
Que, se uma aragem te apagasse agora,
Ah! eu talvez não te acendera mais!...