Auto-da-fé Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 114 de 159
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Auto-da-fé

Queimai-vos cartas, expressões mentidas

Dum tempo infausto que não volta mais!

Flores mirradas, abrasai-vos todas!

Ao fogo! ao fogo, tentações fatais!

Tranças manchadas por seu lábio impuro,

Ardei também nesse voraz clarão!

Falsas memórias e relíquias falsas,

As labaredas vosso asilo são.

Eis o retrato da infiel: tão calma

Como a inocência e como um anjo está!

Queima-te, imagem fementida e torpe!

Varra-se a luz dos olhos teus! Mas ah!

Dá-me que eu possa contemplá-lo ainda,

Fogo insensível de infernal clarão:

Como estes olhos eloquentes falam!

Como repousa esta serena mão!

Ei-lo! Devora-o, mas devora-o rápido,

Pois meu martírio e meu amor são tais,

Que, se uma aragem te apagasse agora,

Ah! eu talvez não te acendera mais!...

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