A Carta
A cartinha gentil que me escreveste
É um tesouro de erros e belezas:
Da tua ortografia as incertezas
Dão mais valor às cousas que disseste.
É um mimo ler-te! E tu não compreendeste
A altura do teu estro! — as ligeirezas
De tua pena valem as grandezas
De Virgílio e Platão, que nunca leste.
Pensas que as ricas sabem muito? Cobre
O ouro, verniz da fofa jerarquia,
As misérias duma alma vesga e pobre;
Tu é que és sábia, ó lirial Maria,
Tu é que és sábia, milionária e nobre:
Tens coração em vez de ortografia.