Os Boêmios
Os boêmios vão cantando
Pelas estradas reais,
Enquanto o sol descambando,
Doira as altas catedrais.
Um deles, esfarrapado,
Meneia, aos sons da viola,
Outro, lívido e esfaimado,
Faz tinir a castanhola.
As mulheres e os meninos
Seguem na frente a bailar,
Ao som dos estranhos hinos
Dessa orquestra singular.
Desde a manhã, todo o bando
As ricas vilas explora,
E vai, cantando, cantando,
Enquanto a fome o devora.
Por vezes, uma criança
Põe-se a tremer e a cair,
Mas o pai grita-lhe: — dança!
Dança! — e ela dança a sorrir.
Cobertos do pó da estrada,
Seminus, magros, sedentos,
Lá vão, em turma agitada,
Os miseráveis, aos centos.
E rubro sol luminoso
Continua a desmaiar
Como um nababo amoroso,
Sobre a terra e sobre o mar.
Ó pobres aves sem ninho!
Pobres árabes sem tenda!
Que em vosso negro caminho
A morte não vos surpreenda!
Cantai! cantai, triste bando,
Vossa dorida canção!
Deixai que o mundo execrando
Vos negue o vintém de um pão!
Sois os poetas da estrada,
Que a eterna febre consome,
Não tendes cama doirada,
Ai não! nem sequer um nome!
Mas seguis esfarrapados,
Vossos destinos fatais,
Protegidos e amparados
Por secretos Ideais.
Quem sabe? Na atroz romagem,
Como celestes visões,
Vos guiam de Homero a Imagem,
E o Fantasma de Camões.
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Enquanto o sol descambando,
Doira as altas catedrais,
Os boêmios vão cantando
Pelas estradas reais...