Os Boêmios Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 17 de 159
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Os Boêmios

Os boêmios vão cantando

Pelas estradas reais,

Enquanto o sol descambando,

Doira as altas catedrais.

Um deles, esfarrapado,

Meneia, aos sons da viola,

Outro, lívido e esfaimado,

Faz tinir a castanhola.

As mulheres e os meninos

Seguem na frente a bailar,

Ao som dos estranhos hinos

Dessa orquestra singular.

Desde a manhã, todo o bando

As ricas vilas explora,

E vai, cantando, cantando,

Enquanto a fome o devora.

Por vezes, uma criança

Põe-se a tremer e a cair,

Mas o pai grita-lhe: — dança!

Dança! — e ela dança a sorrir.

Cobertos do pó da estrada,

Seminus, magros, sedentos,

Lá vão, em turma agitada,

Os miseráveis, aos centos.

E rubro sol luminoso

Continua a desmaiar

Como um nababo amoroso,

Sobre a terra e sobre o mar.

Ó pobres aves sem ninho!

Pobres árabes sem tenda!

Que em vosso negro caminho

A morte não vos surpreenda!

Cantai! cantai, triste bando,

Vossa dorida canção!

Deixai que o mundo execrando

Vos negue o vintém de um pão!

Sois os poetas da estrada,

Que a eterna febre consome,

Não tendes cama doirada,

Ai não! nem sequer um nome!

Mas seguis esfarrapados,

Vossos destinos fatais,

Protegidos e amparados

Por secretos Ideais.

Quem sabe? Na atroz romagem,

Como celestes visões,

Vos guiam de Homero a Imagem,

E o Fantasma de Camões.

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Enquanto o sol descambando,

Doira as altas catedrais,

Os boêmios vão cantando

Pelas estradas reais...

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