O Cego
Ontem meu canto longo e amargurado,
Entre os grupos do povo sussurrante
Vibrou convulso, rouco, soluçante,
Como os queixumes de um adeus magoado.
E quando o humilde cego desgraçado,
Morto de fome e quase agonizante,
Abria a mão gelada e suplicante,
Uma voz de mulher disse: “Coitado!”
Ah! que eu não possa contemplar-te um dia!
Que eu não te possa ver, casta Maria,
Tal que em meu coração hoje te vejo:
Tu, cuja voz plangente e comovida
Ressoou em minha alma agradecida
Mais doce ainda que o rumor de um beijo.