A Canção da Morta
Quando eu cingia a veste caprichosa
Dos saraus opulentos e brilhantes,
Quando nas minhas gazes roçagantes
Enfeitiçava a turba rumorosa;
Diziam todos: — Como ela é formosa!
Que donaires corretos e elegantes!
E cercavam-me em grupos sussurrantes
Como as abelhas em redor da rosa.
Por que será que a multidão magoada
Geme agora de dor e de saudade
Contemplando-me a fronte engrinaldada?
Nunca tão bela fui na mocidade:
Eis-me feliz, risonha e amortalhada
Para as festas azuis da Eternidade.