Per Amica Silentia... Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 94 de 159
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Per Amica Silentia...

Terceira Parte

Leve singrava a nossa esguia barca:

Fagueiro estava o ar e o mar fagueiro...

Lembras-te? À proa a voz do gondoleiro

Cantava uns versos do imortal Petrarca.

A aura marinha a suspirar beijava

A flutuante, a tremulante vela

Bem como um lábio... — e a vela palpitava

Como palpita um seio de donzela.

As majestosas catedrais erguiam

Os imponentes vultos solitários;

De longe em longe, os ecos repetiam

Quebrados sons de velhos campanários.

O sol sem raios lento agonizava

Na curva do horizonte... Preguiçosa

A casta Diva pálida esgarçava

Do firmamento a gaze nebulosa...

Sobre o rochedo a pique em alvo bando

As gaivotas pousavam, uma a uma,

E o torvo mar, junto ao rochedo uivando,

As borrifava de alvacenta espuma.

Frouxo, indeciso ainda cintilava

O clarão do farol na alta colina,

E a Noite como um sonho deslizava

Calma, estrelada, extática, divina!

E quando a nossa aventureira barca

Ia ondulando sobre a vaga nua,

E o gondoleiro os versos de Petrarca

Lançava aos raios da chorosa Lua,

Minha alma, igual à essência vaporosa

Que a terra exala quando a noite desce,

Bem como uma alma que viveu na rosa

E torna a Deus como invisível prece,

Voava a ti, ó meu amor! ó pura,

Pura visão dos mais felizes dias:

E tu, repleta de infantil ternura,

Me contemplavas tímida, e sorrias.

O que eu te disse nem o sei agora!

Pode-se acaso relembrar o canto

Que a ave modula na primeira aurora

E o coração em seu primeiro encanto?

O certo é que a minha vida inteira

Se transformou por ti... Nesse momento

De altivo gozo e glória sobranceira,

Ante o sublime altar do firmamento,

Minha alma errante, pávida, descrente,

Ó peregrina flor do Paraíso,

Fez-se mais pura que o cordeiro algente...

E bastou para isso um teu sorriso.

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