Per Amica Silentia...
Terceira Parte
Leve singrava a nossa esguia barca:
Fagueiro estava o ar e o mar fagueiro...
Lembras-te? À proa a voz do gondoleiro
Cantava uns versos do imortal Petrarca.
A aura marinha a suspirar beijava
A flutuante, a tremulante vela
Bem como um lábio... — e a vela palpitava
Como palpita um seio de donzela.
As majestosas catedrais erguiam
Os imponentes vultos solitários;
De longe em longe, os ecos repetiam
Quebrados sons de velhos campanários.
O sol sem raios lento agonizava
Na curva do horizonte... Preguiçosa
A casta Diva pálida esgarçava
Do firmamento a gaze nebulosa...
Sobre o rochedo a pique em alvo bando
As gaivotas pousavam, uma a uma,
E o torvo mar, junto ao rochedo uivando,
As borrifava de alvacenta espuma.
Frouxo, indeciso ainda cintilava
O clarão do farol na alta colina,
E a Noite como um sonho deslizava
Calma, estrelada, extática, divina!
E quando a nossa aventureira barca
Ia ondulando sobre a vaga nua,
E o gondoleiro os versos de Petrarca
Lançava aos raios da chorosa Lua,
Minha alma, igual à essência vaporosa
Que a terra exala quando a noite desce,
Bem como uma alma que viveu na rosa
E torna a Deus como invisível prece,
Voava a ti, ó meu amor! ó pura,
Pura visão dos mais felizes dias:
E tu, repleta de infantil ternura,
Me contemplavas tímida, e sorrias.
O que eu te disse nem o sei agora!
Pode-se acaso relembrar o canto
Que a ave modula na primeira aurora
E o coração em seu primeiro encanto?
O certo é que a minha vida inteira
Se transformou por ti... Nesse momento
De altivo gozo e glória sobranceira,
Ante o sublime altar do firmamento,
Minha alma errante, pávida, descrente,
Ó peregrina flor do Paraíso,
Fez-se mais pura que o cordeiro algente...
E bastou para isso um teu sorriso.