Casimiro de Abreu
Colhe o Senhor ao despontar do dia,
As madressilvas mal abotoadas,
E as pobres aves de asas emplumadas
Cede às cruentas garras da agonia.
Que desígnios cruéis o braço guia
Do Redentor? — as flores desfolhadas,
As crianças descalças e esfaimadas,
A ave sem ninho, a habitação vazia!
É que uma aurora gloriosa espera
Quem nesta vida tormentosa e escassa,
Como o terno cantor da Primavera,
Por entre cardos a sorrir perpassa:
Pois Deus as flores enlaçou à hera,
Deus às tristezas o sorriso enlaça.