O Viajante Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 117 de 159
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O Viajante

Quando da tarde a aragem refrescava

Os brancos lótus, a palmeira brava

E os areais ardentes,

Quando o chacal nos juncos estendido,

Dormia ao melancólico zumbido

Das abelhas luzentes;

Quando as cegonhas, em longínquo bando,

Iam na etérea tela desenhando

As fugitivas penas,

E a doce lua, o pensativo astro,

Arfava como um seio de alabastro

Entre as nuvens serenas;

Sobre o elefante branco ajaezado

De corais e rubins, — monstro sagrado

No Oceano e no Levante, –

Como visão estranha ela passava,

E em roda dela alegre caminhava

Um cortejo brilhante.

Era a princesa Aral, a descendente

Da mais guerreira tribo, a mais valente

Das tribos africanas:

Negra e amorosa como a Noite, — havia

Nos seus profundos olhos a ardentia

Das ondas soberanas.

Mais de um guerreiro altivo e poderoso

Vindo de longes terras glorioso

De louros revestido,

Tentou roubar-lhe o coração: no entanto,

Ela foi surda à glória, ao rogo, ao pranto

E ele partiu vencido.

Nada a ataria além do seu deserto

Horrendo e imenso, em cujo seio aberto

Ao sol e às estrelas,

Mora o leão enorme, e o tigre escuro

Espreita à sombra do covil impuro

O sono das gazelas.

E sempre ao pôr do sol irradiante

Sobre o nevado e esplêndido elefante

A princesa sorria,

Calcando o pó dos seus reais domínios,

Enquanto ao longe, em vagos tons carmíneos,

Lento expirava o dia.

Ágil como a pantera e tão mimosa

Como o botão da fulva tuberosa

Entre os juncais virentes,

Deslizava-lhe a vida sem que o pranto

Até então lhe profanasse o encanto

Dos olhos transparentes.

Um dia aos seus ouvidos delicados

Soaram gritos, furiosos brados

Da tribo reunida:

Rápida a bela, inquieta e curiosa,

Atravessando a turba revoltosa,

— Alegre e surpreendida –

Viu entre os seus guerreiros arquejantes,

Vingativos, coléricos, possantes,

Um branco — um forasteiro:

Firme como o destino ele sorria,

E o seu olhar heroico parecia

Lutar com o mundo inteiro.

Mil vezes mais que a cintilante e pura

Asa da garça era a perfeita alvura

De sua ebúrnea fronte;

E o seu cabelo espesso, ondeante e loiro,

Brilhava como as alvoradas de oiro

No pálido horizonte.

Em sua branca mão nervosa e fina

Luzia ao sol a esbelta carabina

De emblemas esmaltada;

Sob os seus pés — empoeirada e fria —

Uma formosa antílope jazia

No flanco baleada.

— “És a rainha, bem o vejo: és nobre,

Em tua calma fronte o olhar descobre

O mando sobranceiro;

És a Beleza: a tua formosura

Como a da Noite assombra a criatura”.

Começou o estrangeiro.

Igual ao débil nenúfar do lago

Da estiva brisa ao maternal afago

A mesquinha ignorante,

Senhora do deserto livre e infindo,

Estremecia cabisbaixa ouvindo,

O loiro viajante.

— “Dos meus perdi-me, há quase um dia inteiro,

E um cão, leal e bravo companheiro

Que sempre me seguia,

Morreu de febre no areal ardente:

Peço-te pois um teto unicamente

Até romper o dia”.

Tímida a um tempo e majestosa, a filha

Da grande tribo, a negra maravilha,

virgem e soberana,

Abriu a turba com um sorriso honesto,

E ao forasteiro ofereceu num gesto

Sua régia cabana.

O sol vibrava as crepitantes setas

Sobre o areal em fogo: — ágeis, inquietas

As abelhas zumbiam...

De longe em longe os gritos penetrantes

Duma afastada tropa de elefantes

Os ecos repetiam.

E do estrangeiro o sono respeitado,

Tal como um rio plácido e sagrado,

Que corre em abandono,

Ninguém ousou quebrar: — fora punido

Com suplícios cruéis o destemido

Que lhe turbasse o sono.

Caiu a tarde, e a noite mansamente

Desenrolou o véu fosforescente

Pela ínvia grandeza

Da solidão tremenda e pavorosa...

No entanto, muda, trêmula, chorosa,

A cândida princesa

Cismava... Em quê? Num mundo iluminado,

Todo de loiras frontes povoado...

E um turbilhão de cenas

Iam-lhe na alma exausta resvalando,

À rouca voz do solitário bando

Das lúgubres hienas.

Ao romper da manhã o forasteiro

Disse-lhe: — e o seu olhar longo e fagueiro

Turbava-a e comovia –

— “Tu mereceras mais que um trono: a terra

Bem poucas almas como a tua encerra:

Deus te salve, Maria”.

Quando do céu na gaze diamantina

Sumiu-se enfim a longa carabina

Do moço viandante,

Ela curvou a fronte dolorida,

Como sucede à antílope ferida

E à corsa agonizante.

Nunca mais ao luzir do sol cadente,

Sobre o elefante branco a onipotente

Princesa acompanhada

Por seus fiéis e inúmeros guerreiros,

Foi respirar os hálitos primeiros

Da noite embalsamada.

Nunca mais uma flor, uma esperança

Veio adornar-lhe a fronte, e à semelhança

Do meigo aloés queimado

Pelo simum revolto, ela sentia

Faltar-lhe o sangue e em ânsias comprimia

O seio amargurado.

Às vezes — só — em frente do deserto

O seu olhar saudoso, vago e incerto

No espaço se embebia,

E a sua boca tremulante e pura

Repetia com mística ternura:

“Deus te salve, Maria”.

A tribo inteira em grupos, lacrimosa,

Contemplava-a de longe, e a mão calosa

Do possante guerreiro,

Brandindo a lança — que o furor agita —

Ameaçava a sombra ímpia e maldita

Do branco aventureiro.

E o dia frouxo e lânguido expirava:

O sol de mornas vagas inundava

As solidões medonhas...

E além, além, no éter transparente

Ia-se destacando lentamente

O voo das cegonhas.

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