O Viajante
Quando da tarde a aragem refrescava
Os brancos lótus, a palmeira brava
E os areais ardentes,
Quando o chacal nos juncos estendido,
Dormia ao melancólico zumbido
Das abelhas luzentes;
Quando as cegonhas, em longínquo bando,
Iam na etérea tela desenhando
As fugitivas penas,
E a doce lua, o pensativo astro,
Arfava como um seio de alabastro
Entre as nuvens serenas;
Sobre o elefante branco ajaezado
De corais e rubins, — monstro sagrado
No Oceano e no Levante, –
Como visão estranha ela passava,
E em roda dela alegre caminhava
Um cortejo brilhante.
Era a princesa Aral, a descendente
Da mais guerreira tribo, a mais valente
Das tribos africanas:
Negra e amorosa como a Noite, — havia
Nos seus profundos olhos a ardentia
Das ondas soberanas.
Mais de um guerreiro altivo e poderoso
Vindo de longes terras glorioso
De louros revestido,
Tentou roubar-lhe o coração: no entanto,
Ela foi surda à glória, ao rogo, ao pranto
E ele partiu vencido.
Nada a ataria além do seu deserto
Horrendo e imenso, em cujo seio aberto
Ao sol e às estrelas,
Mora o leão enorme, e o tigre escuro
Espreita à sombra do covil impuro
O sono das gazelas.
E sempre ao pôr do sol irradiante
Sobre o nevado e esplêndido elefante
A princesa sorria,
Calcando o pó dos seus reais domínios,
Enquanto ao longe, em vagos tons carmíneos,
Lento expirava o dia.
Ágil como a pantera e tão mimosa
Como o botão da fulva tuberosa
Entre os juncais virentes,
Deslizava-lhe a vida sem que o pranto
Até então lhe profanasse o encanto
Dos olhos transparentes.
Um dia aos seus ouvidos delicados
Soaram gritos, furiosos brados
Da tribo reunida:
Rápida a bela, inquieta e curiosa,
Atravessando a turba revoltosa,
— Alegre e surpreendida –
Viu entre os seus guerreiros arquejantes,
Vingativos, coléricos, possantes,
Um branco — um forasteiro:
Firme como o destino ele sorria,
E o seu olhar heroico parecia
Lutar com o mundo inteiro.
Mil vezes mais que a cintilante e pura
Asa da garça era a perfeita alvura
De sua ebúrnea fronte;
E o seu cabelo espesso, ondeante e loiro,
Brilhava como as alvoradas de oiro
No pálido horizonte.
Em sua branca mão nervosa e fina
Luzia ao sol a esbelta carabina
De emblemas esmaltada;
Sob os seus pés — empoeirada e fria —
Uma formosa antílope jazia
No flanco baleada.
— “És a rainha, bem o vejo: és nobre,
Em tua calma fronte o olhar descobre
O mando sobranceiro;
És a Beleza: a tua formosura
Como a da Noite assombra a criatura”.
Começou o estrangeiro.
Igual ao débil nenúfar do lago
Da estiva brisa ao maternal afago
A mesquinha ignorante,
Senhora do deserto livre e infindo,
Estremecia cabisbaixa ouvindo,
O loiro viajante.
— “Dos meus perdi-me, há quase um dia inteiro,
E um cão, leal e bravo companheiro
Que sempre me seguia,
Morreu de febre no areal ardente:
Peço-te pois um teto unicamente
Até romper o dia”.
Tímida a um tempo e majestosa, a filha
Da grande tribo, a negra maravilha,
virgem e soberana,
Abriu a turba com um sorriso honesto,
E ao forasteiro ofereceu num gesto
Sua régia cabana.
O sol vibrava as crepitantes setas
Sobre o areal em fogo: — ágeis, inquietas
As abelhas zumbiam...
De longe em longe os gritos penetrantes
Duma afastada tropa de elefantes
Os ecos repetiam.
E do estrangeiro o sono respeitado,
Tal como um rio plácido e sagrado,
Que corre em abandono,
Ninguém ousou quebrar: — fora punido
Com suplícios cruéis o destemido
Que lhe turbasse o sono.
Caiu a tarde, e a noite mansamente
Desenrolou o véu fosforescente
Pela ínvia grandeza
Da solidão tremenda e pavorosa...
No entanto, muda, trêmula, chorosa,
A cândida princesa
Cismava... Em quê? Num mundo iluminado,
Todo de loiras frontes povoado...
E um turbilhão de cenas
Iam-lhe na alma exausta resvalando,
À rouca voz do solitário bando
Das lúgubres hienas.
Ao romper da manhã o forasteiro
Disse-lhe: — e o seu olhar longo e fagueiro
Turbava-a e comovia –
— “Tu mereceras mais que um trono: a terra
Bem poucas almas como a tua encerra:
Deus te salve, Maria”.
Quando do céu na gaze diamantina
Sumiu-se enfim a longa carabina
Do moço viandante,
Ela curvou a fronte dolorida,
Como sucede à antílope ferida
E à corsa agonizante.
Nunca mais ao luzir do sol cadente,
Sobre o elefante branco a onipotente
Princesa acompanhada
Por seus fiéis e inúmeros guerreiros,
Foi respirar os hálitos primeiros
Da noite embalsamada.
Nunca mais uma flor, uma esperança
Veio adornar-lhe a fronte, e à semelhança
Do meigo aloés queimado
Pelo simum revolto, ela sentia
Faltar-lhe o sangue e em ânsias comprimia
O seio amargurado.
Às vezes — só — em frente do deserto
O seu olhar saudoso, vago e incerto
No espaço se embebia,
E a sua boca tremulante e pura
Repetia com mística ternura:
“Deus te salve, Maria”.
A tribo inteira em grupos, lacrimosa,
Contemplava-a de longe, e a mão calosa
Do possante guerreiro,
Brandindo a lança — que o furor agita —
Ameaçava a sombra ímpia e maldita
Do branco aventureiro.
E o dia frouxo e lânguido expirava:
O sol de mornas vagas inundava
As solidões medonhas...
E além, além, no éter transparente
Ia-se destacando lentamente
O voo das cegonhas.