A Alcova Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 55 de 159
Obra Menu

A Alcova

Através das cambraias rescendentes

E sobre o azul papel cheio de lírios,

Vê-se do Cristo os olhos inocentes

E a cabeça, crivada de martírios;

Murcham num jarro de ideal opala

As rosas do Japão e as margaridas;

Pairam no ambiente as auras adormidas

Que a asa dos silfos pela noite exala...

Sobre o róseo tapete ao pé do leito,

Vê-se uma fita; — além vê-se a botina,

Uma botina, cujo molde estreito

Diz que é do céu o pé dessa menina.

E o travesseiro, então? E os castos folhos

Desse lençol em que ela sonha e goza,

Quando do sono a garra carinhosa

Cerre a cortina dos seus negros olhos?

E é tal o encanto desse mago ambiente,

E tão profundo esse divino encanto,

Que a alma, ao senti-lo, — ao mesmo tempo sente

Ondas e ondas de sorriso e pranto.

E como os crentes que da falta isentos

Libam as auras de uma vida nova,

Quem atravessa a porta dessa alcova,

Santa morada de alvos pensamentos;

Quem vê do Cristo a face macilenta,

A cruz ebúrnea, os cravos sacrossantos,

Nos olhos baços os gelados prantos,

Na roxa boca a pérola sangrenta;

Pensa no dia do final Juízo,

De crenças rico, de delícias farto,

E não sabe se aquela alcova é um quarto,

Ou se esse quarto é já o Paraíso.

1/1
Menu

Fazer anotação