A Alcova
Através das cambraias rescendentes
E sobre o azul papel cheio de lírios,
Vê-se do Cristo os olhos inocentes
E a cabeça, crivada de martírios;
Murcham num jarro de ideal opala
As rosas do Japão e as margaridas;
Pairam no ambiente as auras adormidas
Que a asa dos silfos pela noite exala...
Sobre o róseo tapete ao pé do leito,
Vê-se uma fita; — além vê-se a botina,
Uma botina, cujo molde estreito
Diz que é do céu o pé dessa menina.
E o travesseiro, então? E os castos folhos
Desse lençol em que ela sonha e goza,
Quando do sono a garra carinhosa
Cerre a cortina dos seus negros olhos?
E é tal o encanto desse mago ambiente,
E tão profundo esse divino encanto,
Que a alma, ao senti-lo, — ao mesmo tempo sente
Ondas e ondas de sorriso e pranto.
E como os crentes que da falta isentos
Libam as auras de uma vida nova,
Quem atravessa a porta dessa alcova,
Santa morada de alvos pensamentos;
Quem vê do Cristo a face macilenta,
A cruz ebúrnea, os cravos sacrossantos,
Nos olhos baços os gelados prantos,
Na roxa boca a pérola sangrenta;
Pensa no dia do final Juízo,
De crenças rico, de delícias farto,
E não sabe se aquela alcova é um quarto,
Ou se esse quarto é já o Paraíso.