A uma Cega
Não te lastimes, não, bela infeliz,
Por não poderes ver o nosso mundo:
Não vale tanto — crê — nem é jocundo
Como o teu pobre coração te diz.
Não vês os torpes pensamentos vis
Que se agitam do nosso olhar no fundo:
O desejo brutal, o instinto imundo
Que nos domina. Ó cega, és bem feliz.
Varre da mente os gozos com que sonha
Tua insensata e errante fantasia,
Ergue a cabeça lívida e tristonha:
No nosso mundo a infâmia tripudia
Nua, asquerosa, lúbrica, medonha!
Feliz de quem não vê a luz do dia.