A uma Cega Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 122 de 159
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A uma Cega

Não te lastimes, não, bela infeliz,

Por não poderes ver o nosso mundo:

Não vale tanto — crê — nem é jocundo

Como o teu pobre coração te diz.

Não vês os torpes pensamentos vis

Que se agitam do nosso olhar no fundo:

O desejo brutal, o instinto imundo

Que nos domina. Ó cega, és bem feliz.

Varre da mente os gozos com que sonha

Tua insensata e errante fantasia,

Ergue a cabeça lívida e tristonha:

No nosso mundo a infâmia tripudia

Nua, asquerosa, lúbrica, medonha!

Feliz de quem não vê a luz do dia.

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