A meu Filho Gabriel Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 147 de 159
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A meu Filho Gabriel

Há poucas horas apenas

Que te partiste a chorar

Deste mundo e destas penas,

Ó criatura exemplar!

Fugiste à vida traidora

E à nossa vil multidão,

Em busca da eterna Aurora,

Da eterna Consolação.

Mimoso, aéreo, suave,

Tua mãe viu-te passar

Como um relâmpago, uma ave

Na lisa face do mar.

Mal tuas asas nevadas

Roçaram do mundo atroz

As ruas enlameadas,

Ó andorinha veloz!

Teus dias foram contados

E breves, ó meu amor,

Como os pistilos doirados,

Como os dias de uma flor.

Deste à terra ingrata e rude,

No teu fúlgido clarão,

A semente da virtude

E a raiz dum coração:

Dum coração de amianto,

Duma alma gêmea da luz:

Beijo orvalhado de pranto,

Cravo das mãos de Jesus!

E como a flor morre abrindo

As folhas ébrias de mel,

Tu morreste, ó loiro, ó lindo

Ó meu anjo Gabriel!...

Dos teus encantos o brilho

Deus formara-o para si:

O mundo — o mundo, meu filho,

Não era digno de ti.

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