A meu Filho Gabriel
Há poucas horas apenas
Que te partiste a chorar
Deste mundo e destas penas,
Ó criatura exemplar!
Fugiste à vida traidora
E à nossa vil multidão,
Em busca da eterna Aurora,
Da eterna Consolação.
Mimoso, aéreo, suave,
Tua mãe viu-te passar
Como um relâmpago, uma ave
Na lisa face do mar.
Mal tuas asas nevadas
Roçaram do mundo atroz
As ruas enlameadas,
Ó andorinha veloz!
Teus dias foram contados
E breves, ó meu amor,
Como os pistilos doirados,
Como os dias de uma flor.
Deste à terra ingrata e rude,
No teu fúlgido clarão,
A semente da virtude
E a raiz dum coração:
Dum coração de amianto,
Duma alma gêmea da luz:
Beijo orvalhado de pranto,
Cravo das mãos de Jesus!
E como a flor morre abrindo
As folhas ébrias de mel,
Tu morreste, ó loiro, ó lindo
Ó meu anjo Gabriel!...
Dos teus encantos o brilho
Deus formara-o para si:
O mundo — o mundo, meu filho,
Não era digno de ti.