No Deserto
Quando a virgem fugia à lança dos sicários
Unindo ao casto seio o redentor bendito,
A noite os surpreendeu nos plainos solitários
Onde Mêmnon eleva o tronco do granito.
Nem um astro sequer da cúpula divina
No profundo dossel, nem um vislumbre, apenas:
Era a hora em que o vento arqueja entre a ruína
Aos gritos do chacal e aos uivos das hienas.
A José, cujos pés em chagas latejavam
Sobre a areia cruel, disse a virgem Maria:
“Repousemos aqui”. — Seus braços vacilavam —
“Seguiremos depois, quando romper o dia”.
Tateando na sombra espessa e lutuosa,
José o roto manto ao longo desdobrava:
E a virgem Mãe de leve, e pálida e medrosa,
Sobre o manto deitou Jesus que ressonava.
“Dorme” disse ao esposo a virgem brandamente:
“Por nós o doce Pai atento está velando”.
Ele triste inclinou a fronte humildemente,
Ela aos pés de Jesus adormeceu chorando.
E sonhou... O futuro horrífico e sangrento
Do seu loiro senhor, do seu divino filho,
Drama de pranto e luz — veio nesse momento
Encher-lhe o coração de pavoroso brilho.
Viu-o crescer tranquilo e puro, abençoando
As negras multidões torvas de saciedade:
Ouviu-lhe a grande voz, como um clarim lançando
Ao mundo espavorido os sons da Liberdade.
Viu-o, por entre o povo inóspito e implacável,
Forte como os heróis e — débil como as flores —
Colhendo em seu regaço eternamente afável,
As crianças gentis e os rudes pescadores.
Viu-o nobre, sereno e firme, interpretando
Os mistérios da vida efêmera e terrena:
E a multidão pasmada o ia acompanhando,
E banhava-o de amor o olhar de Madalena...
Viu-o chorar então as lágrimas primeiras,
Ele — o santo ideal do Bem e da Ternura —
No medonho jardim das tristes oliveiras,
Bebendo, gota a gota, o cálix da amargura.
Viu-o depois sorrir ao beijo tenebroso
Que Judas lhe imprimiu na imaculada fronte,
Como sorri o oceano ao lenho aventuroso,
E como acolhe o raio o alcantilado monte.
Por fim o viu convulso e esquálido arrastando
O próprio cadafalso e o lúgubre sudário...
Viu-o amarrado à cruz, — viu-o morrer penando,
Entre infames ladrões, no cimo do Calvário.
E Maria a gemer, extenuada, exangue,
Despertou num soluço, e olhou: Jesus dormia:
A aurora lhe formava um nimbo cor de sangue,
E o divino Cordeiro extático sorria.