No Deserto Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 145 de 159
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No Deserto

Quando a virgem fugia à lança dos sicários

Unindo ao casto seio o redentor bendito,

A noite os surpreendeu nos plainos solitários

Onde Mêmnon eleva o tronco do granito.

Nem um astro sequer da cúpula divina

No profundo dossel, nem um vislumbre, apenas:

Era a hora em que o vento arqueja entre a ruína

Aos gritos do chacal e aos uivos das hienas.

A José, cujos pés em chagas latejavam

Sobre a areia cruel, disse a virgem Maria:

“Repousemos aqui”. — Seus braços vacilavam —

“Seguiremos depois, quando romper o dia”.

Tateando na sombra espessa e lutuosa,

José o roto manto ao longo desdobrava:

E a virgem Mãe de leve, e pálida e medrosa,

Sobre o manto deitou Jesus que ressonava.

“Dorme” disse ao esposo a virgem brandamente:

“Por nós o doce Pai atento está velando”.

Ele triste inclinou a fronte humildemente,

Ela aos pés de Jesus adormeceu chorando.

E sonhou... O futuro horrífico e sangrento

Do seu loiro senhor, do seu divino filho,

Drama de pranto e luz — veio nesse momento

Encher-lhe o coração de pavoroso brilho.

Viu-o crescer tranquilo e puro, abençoando

As negras multidões torvas de saciedade:

Ouviu-lhe a grande voz, como um clarim lançando

Ao mundo espavorido os sons da Liberdade.

Viu-o, por entre o povo inóspito e implacável,

Forte como os heróis e — débil como as flores —

Colhendo em seu regaço eternamente afável,

As crianças gentis e os rudes pescadores.

Viu-o nobre, sereno e firme, interpretando

Os mistérios da vida efêmera e terrena:

E a multidão pasmada o ia acompanhando,

E banhava-o de amor o olhar de Madalena...

Viu-o chorar então as lágrimas primeiras,

Ele — o santo ideal do Bem e da Ternura —

No medonho jardim das tristes oliveiras,

Bebendo, gota a gota, o cálix da amargura.

Viu-o depois sorrir ao beijo tenebroso

Que Judas lhe imprimiu na imaculada fronte,

Como sorri o oceano ao lenho aventuroso,

E como acolhe o raio o alcantilado monte.

Por fim o viu convulso e esquálido arrastando

O próprio cadafalso e o lúgubre sudário...

Viu-o amarrado à cruz, — viu-o morrer penando,

Entre infames ladrões, no cimo do Calvário.

E Maria a gemer, extenuada, exangue,

Despertou num soluço, e olhou: Jesus dormia:

A aurora lhe formava um nimbo cor de sangue,

E o divino Cordeiro extático sorria.

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