Nhanhã Lírica: Sonetos e Rimas · Capítulo 58 de 159
Obra Menu

Nhanhã

Um dia apresentaram-me. Ela lia

Num canto do salão.

Deixou cair aos pés o livro, — e ria

Estendendo-me a mão.

Mão de princesa, fina, delicada,

De tão macio alvor

Qual se a talhara alguma boa fada

No cálix de uma flor.

Era no campo. As auras forasteiras

Suspiravam no ar,

Frescas do grato odor das laranjeiras,

Dos raios de luar.

Surda uma voz ao longe ressoava

Em doloridos ais...

Perguntei quem cantava. — Oh! uma escrava!

Disse ela. E nada mais.

Falou-me então das valsas delirantes

De Istraus e do furor

Dos novos cotillons. Disse-me: — Dantes

Valsava-se melhor.

E a voz da escrava como um ai de morte

Adejava ao luar...

— “Li, há dois dias, num jornal da Corte

Que a Patti vai chegar:

Será verdade? Ah! quem me dera! A moda

Renascerá enfim!”

E ela, a bater as mãos, ria-se toda

Olhando para mim.

Contemplei melancólico o semblante

Dessa virgem feliz:

Era mais alva que ao luar errante

As pálidas willis;

Era tão doce como a Fantasia

Dum bardo sonhador:

Lamartine colhera uma Harmonia

Nos lábios dessa flor.

E, enquanto o seu olhar negro brilhava,

Como a onda ao luar,

E a suspirosa aragem derramava

O aroma do pomar;

Enquanto aquela boca fulgurante

Mais pura que os cristais,

Repetia-me a crônica elegante

Dos últimos jornais;

A voz da escrava — trêmula, queixosa

Expirou na amplidão,

Longa como uma nênia dolorosa,

triste como a paixão.

1/1
Menu

Fazer anotação