Naufrágio
Sulcando as ondas soberanas, belas
Do verde mar a nau galharda corre:
Tranquilo o dia pouco a pouco morre,
E a noite assoma à frente das estrelas.
Enfuna o vento o desfraldado pano,
O tempo é calmo, o espaço é todo um prisma:
E de repente a nau para e se abisma
Nas fauces torvas e infernais do Oceano.
Sabeis por quê? Ninguém a bordo via
Ao nível do porão um ponto incerto:
Riam-se à vida e a morte os conduzia.
Também há almas como a nau decerto:
Vê-lhes o mundo a efêmera alegria,
E elas trazem no seio um cancro aberto.