O descanso bifurcado
Do tronco crescem os ramos; deles, os gravetos. Assim, em assuntos produtivos, crescem os capítulos.
O descanso bifurcado aludido numa página anterior merece menção independente. É uma vara entalhada de forma peculiar, com cerca de dois pés de comprimento, inserida perpendicularmente na amurada de boreste perto da proa, com o fim de fornecer apoio à extremidade de madeira do arpão, cuja outra ponta nua e farpada projeta-se em declive da proa. Assim, a arma fica instantaneamente à mão de quem a arremessa, que a arranca de seu apoio com tanta prontidão quanto um homem do sertão tira seu rifle da parede. É costume haver dois arpões repousando no descanso bifurcado, chamados respectivamente primeiro e segundo ferros.
Mas esses dois arpões, cada qual por seu próprio cabo, estão ambos ligados à linha; o objetivo é este: arremessá-los ambos, se possível, um imediatamente depois do outro na mesma baleia; de modo que, se, no arrasto que se seguirá, um deles se soltar, o outro ainda possa conservar presa. É uma duplicação das chances. Mas acontece com muita frequência que, devido à corrida instantânea, violenta e convulsiva da baleia ao receber o primeiro ferro, torna-se impossível ao arpoeiro, por mais relampejantes que sejam seus movimentos, lançar nela o segundo ferro. Não obstante, como o segundo ferro já está ligado à linha, e a linha está correndo, segue-se que essa arma deve, em todo caso, ser lançada antecipadamente para fora do bote, de algum modo e em algum lugar; caso contrário, o mais terrível perigo envolveria todos a bordo. Nesses casos, portanto, ela é atirada à água; as voltas sobressalentes da linha de caixa, mencionadas em capítulo precedente, tornam esse feito, na maior parte das vezes, prudentemente praticável. Mas esse ato crítico nem sempre deixa de vir acompanhado dos acidentes mais tristes e fatais.
Além disso: deveis saber que, quando o segundo ferro é lançado ao mar, daí em diante se torna um terror pendente, de fio cortante, corcoveando de modo arisco em torno do bote e da baleia, embaraçando as linhas ou cortando-as, e produzindo uma sensação prodigiosa em todas as direções. Nem, em geral, é possível prendê-lo de novo até que a baleia esteja devidamente capturada e morta.
Considerai agora como deve ser no caso de quatro botes todos atacando uma baleia excepcionalmente forte, ativa e sabida; quando, por causa dessas qualidades nela, bem como dos mil acidentes concorrentes de empreendimento tão audacioso, oito ou dez segundos ferros soltos podem estar simultaneamente pendendo ao redor dela. Pois, é claro, cada bote é suprido de vários arpões para serem amarrados à linha caso o primeiro seja arremessado ineficazmente e sem recuperação. Todos esses pormenores são aqui narrados fielmente, pois não deixarão de elucidar várias passagens importantíssimas, ainda que intricadas, em cenas a serem pintadas daqui por diante.