O carpinteiro Moby Dick - Tradução Literunico · Capítulo 107 de 136
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O carpinteiro

Senta-te, feito sultão, entre as luas de Saturno, e toma o homem elevado e abstrato, sozinho; e ele parece uma maravilha, uma grandeza e uma dor. Mas, do mesmo ponto, toma a humanidade em massa, e em sua maior parte ela parece uma turba de duplicatas desnecessárias, contemporâneas e hereditárias. Contudo, por mais humilde que fosse, e longe de fornecer um exemplo da elevada abstração humana, o carpinteiro do Pequod não era duplicata; por isso, ele agora entra em pessoa neste palco.

Como todos os carpinteiros de navio que andam no mar, e mais especialmente os que pertencem a embarcações baleeiras, ele era, até certo ponto improvisado e prático, igualmente versado em numerosos ofícios e misteres colaterais ao seu próprio; sendo a profissão do carpinteiro o tronco antigo e ramificado de todos esses muitos trabalhos manuais que, mais ou menos, têm a ver com a madeira como matérial auxiliar. Mas, além da aplicação a ele da observação genérica acima, este carpinteiro do Pequod era singularmente eficiente naquelas mil emergências mecânicas sem nome que continuamente se repetem num grande navio, numa viagem de três ou quatro anos, por mares incivilizados e remotíssimos. Pois, sem falar de sua prontidão nos deveres ordinários: consertar botes avariados, mastros rachados, reformar o formato de remos de lâmina desajeitada, encaixar olhos-de-boi no convés, ou novas cavilhas de madeira nas tábuas do costado, e outros assuntos diversos mais diretamente pertencentes ao seu ofício especial; ele era, além disso, sem hesitação, perito em toda sorte de aptidões conflitantes, úteis e caprichosas.

O único grande palco onde desempenhava todos os seus papéis tão múltiplos era sua bancada de tornos; uma mesa longa, rude e pesada, provida de vários tornos, de tamanhos diferentes, tanto de ferro como de madeira. Em todos os momentos, exceto quando havia baleias ao costado, essa bancada ficava firmemente amarrada de través contra a traseira dos fornos de derretimento.

Encontrava-se uma cavilha de amarra demasiado grossa para entrar facilmente no buraco: o carpinteiro a prendia num de seus tornos sempre prontos e, sem demora, a limava menor. Um pássaro terrestre perdido, de plumagem estranha, desviava-se para bordo e era feito cativo: de varetas bem raspadas de osso de baleia-franca e travessas de marfim de cachalote, o carpinteiro lhe fazia uma gaiola com aspecto de pagode. Um remador torcia o pulso: o carpinteiro preparava uma loção calmante. Stubb ansiava por estrelas de vermelhão pintadas na lâmina de cada remo seu; aparafusando cada remo em seu grande torno de madeira, o carpinteiro fornecia simetricamente a constelação. Um marinheiro tomava gosto por usar brincos de osso de tubarão: o carpinteiro lhe furava as orelhas. Outro tinha dor de dente: o carpinteiro, alicaté em punho, pousando uma das mãos sobre a bancada, mandava-o sentar ali; mas o pobre sujeito se contorcia de modo indomável sob a operação inconclusa; girando então a manivela de seu torno de madeira, o carpinteiro lhe fazia sinal para meter a mandíbula nele, se queria que lhe arrancasse o dente.

Assim, este carpinteiro estava preparado em todos os pontos, e era igualmente indiferente e sem respeito em todos. Dentes, ele os considerava pedaços de marfim; cabeças, julgava-as apenas moitões de topo; os próprios homens, tinha-os levianamente por cabrestantes. Mas, se agora, num campo tão vasto, assim variamente realizado e com tanta vivacidade de perícia nele, também, tudo isso pareceria argumentar alguma vivacidade incomum de inteligência, não era precisamente assim. Pois em nada esse homem era mais notável do que por uma certa estolidez impessoal, por assim dizer; impessoal, digo, pois ela se esbatia no infinito circundante das coisas, de tal modo que parecia una com a estolidez geral discernível em todo o mundo visível; que, embora incessantemente ativo de incontáveis modos, ainda assim guarda eternamente o silêncio, e ignora-te, embora caves fundações para catédrais. Contudo, essa estolidez meio horrível nele, envolvendo também, ao que parecia, uma insensibilidade que se ramificava por tudo; essa mesma estolidez era curiosamente salpicada, por vezes, de uma velha comicidade chiada, antediluviana, de muleta, aqui e ali raiada de certa sagacidade grisalha; tal como poderia ter servido para passar o tempo durante a guarda da meia-noite no barbado castelo de proa da arca de Noé. Seria porque esse velho carpinteiro fora um errante por toda a vida, cujo muito rolar de um lado para outro não apenas não juntara musgo, mas, o que é mais, havia esfregado para longe quaisquer pequenas aderências exteriores que originalmente lhe pertencessem? Ele era uma abstração descascada; um inteiro sem fração; sem compromisso, como um recém-nascido; vivendo sem referência premeditada a este mundo ou ao outro. Quase se poderia dizer que essa estranha falta de compromisso nele envolvia uma espécie de ininteligência; pois, em seus numerosos ofícios, ele não parecia trabalhar tanto pela razão ou pelo instinto, ou simplesmente porque fora instruído nisso, ou por qualquer mistura de todos esses, regular ou irregular; mas apenas por uma espécie de processo literal, espontâneo, surdo e mudo. Era um manipulador puro; seu cérebro, se algum dia tivera um, devia ter escorrido cedo para dentro dos músculos de seus dedos. Era como um daqueles engenhos de Sheffield, irracionais mas ainda assim utilíssimos, multum in parvo, assumindo por fora, embora um pouco inchado, a aparência de um canivete comum; mas contendo não apenas lâminas de vários tamanhos, como também chaves de fenda, saca-rolhas, pinças, sovelas, penas, réguas, limas de unha, escareadores. Assim, se seus superiores queriam usar o carpinteiro como chave de fenda, bastava abrir essa parte dele, e o parafuso estava apertado; ou, se como pinça, pegá-lo pelas pernas, e ali estavam elas.

Contudo, como já foi insinuado, esse carpinteiro abre-e-fecha, dotado de todas as ferramentas, não era afinal uma simples máquina de autômato. Se não trazia em si uma alma comum, tinha alguma coisa sutil que de algum modo, anomalamente, cumpria seu dever. O que era isso, se essência de mercúrio, ou algumas gotas de amoníaco, não há como dizer. Mas ali estava; e ali habitara já por uns sessenta anos ou mais. E era isso, esse mesmo inexplicável e astuto princípio vital nele; era isso que o mantinha, grande parte do tempo, a soliloquiar; mas apenas como uma roda sem razão, que também soliloquia zumbindo; ou melhor, seu corpo era uma guarita, e esse soliloquiador estava ali de guarda, falando o tempo todo para conservar-se acordado.

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