A corda de macaco Moby Dick - Tradução Literunico · Capítulo 72 de 136
Obra Menu

A corda de macaco

No trabalho tumultuoso de cortar e cuidar de uma baleia, há muito correr para trás e para a frente entre a tripulação. Ora são necessárias mãos aqui, depois de novo mãos ali. Não se fica em nenhum lugar; pois, ao mesmo tempo, tudo precisa ser feito em toda parte. O mesmo ocorre com quem tenta descrever a cena. Devemos agora refazer um pouco nosso caminho. Foi mencionado que, ao abrir pela primeira vez terreno no dorso da baleia, o gancho de gordura foi inserido no buraco original ali cortado pelas pás dos imediatos. Mas como uma massa tão desajeitada e pesada quanto esse mesmo gancho foi fixada naquele buraco? Foi inserida ali por meu amigo particular Queequeg, cujo dever era, como arpoeiro, descer sobre o dorso do monstro para o propósito especial referido. Mas em muitíssimos casos, as circunstâncias exigem que o arpoeiro permaneça sobre a baleia até que toda a operação de esfolar ou despir esteja concluída. A baleia, observe-se, jaz quase inteiramente submersa, excetuadas as partes imediatas em que se trabalha. Assim, lá embaixo, uns dez pés abaixo do nível do convés, o pobre arpoeiro se debate, meio sobre a baleia e meio na água, enquanto a vasta massa gira sob ele como uma roda de moinho. Na ocasião em questão, Queequeg figurava em traje das Terras Altas, camisa e meias, no qual, aos meus olhos pelo menos, aparecia com vantagem incomum; e ninguém teve melhor oportunidade de observá-lo, como se verá em breve.

Sendo o proeiro do selvagem, isto é, a pessoa que puxava o remo de proa em seu bote, o segundo da frente, era meu alegre dever assisti-lo enquanto empreendia aquela dura escalada no dorso da baleia morta. Já vistes meninos italianos de realejo segurando por uma longa corda um macaco dançante. Exatamente assim, do costado íngreme do navio, eu segurava Queequeg lá embaixo no mar, por meio do que tecnicamente se chama na pesca uma corda de macaco, presa a uma forte tira de lona afivelada em sua cintura.

Era negócio humoristicamente perigoso para nós dois. Pois, antes de prosseguirmos, deve-se dizer que a corda de macaco estava presa nas duas pontas; presa ao largo cinto de lona de Queequeg e presa ao meu estreito cinto de couro. De modo que, para o bem ou para o mal, nós dois, por enquanto, estávamos casados; e, se o pobre Queequeg afundasse para não mais subir, então tanto o costume quanto a honra exigiam que, em vez de cortar a corda, ela me arrastasse para baixo em seu rastro. Assim, portanto, uma ligadura siamesa alongada nos unia. Queequeg era meu próprio irmão gêmeo inseparável; e eu não podia de modo algum livrar-me das perigosas responsabilidades que o vínculo de cânhamo acarretava.

Tão forte e metafisicamente concebi minha situação então que, enquanto observava atentamente seus movimentos, parecia-me perceber distintamente que minha própria individualidade estava agora fundida numa companhia por ações de dois; que meu livre-arbítrio havia recebido ferida mortal; e que o erro ou infortúnio de outro poderia mergulhar a mim, inocente, em desastre e morte imerecidos. Portanto, vi que ali havia uma espécie de interregno na Providência; pois sua equidade imparcial jamais poderia suportar injustiça tão grosseira. E, no entanto, ponderando ainda mais, enquanto eu o puxava de vez em quando de entre a baleia e o navio, que ameaçavam esmagá-lo, ponderando ainda mais, digo, vi que essa minha situação era a situação precisa de todo mortal que respira; apenas, na maioria dos casos, ele, de um modo ou de outro, tem essa conexão siamesa com uma pluralidade de outros mortais. Se teu banqueiro quebra, tu estalas; se teu boticário por engano te envia veneno nas pílulas, tu morres. É verdade, podes dizer que, por cautela extrema, talvez escapes desses e dos muitos outros maus acasos da vida. Mas, por mais cuidadosamente que eu manejasse a corda de macaco de Queequeg, às vezes ele a sacudia de tal modo que eu chegava muito perto de escorregar para fora do navio. Nem podia possivelmente esquecer que, fizesse eu o que fizesse, só tinha o manejo de uma de suas pontas.

Insinuei que muitas vezes eu puxava o pobre Queequeg de entre a baleia e o navio, onde ocasionalmente ele caía, pelo incessante rolar e oscilar de ambos. Mas esse não era o único perigo de esmagamento a que estava exposto. Não intimidados pelo massacre feito contra eles durante a noite, os tubarões, agora novamente e mais agudamente atraídos pelo sangue antes represado que começava a fluir da carcaça, enxameavam ao redor dela como abelhas numa colmeia.

E bem no meio desses tubarões estava Queequeg; que muitas vezes os afastava com os pés debatentes. Coisa inteiramente incrível, não fosse o fato de que, atraído por presa como uma baleia morta, o tubarão, de resto carnívoro de modo variado, raramente tocará um homem.

Não obstante, bem se pode acreditar que, já que têm tão voraz dedo nessa torta, considera-se prudente vigiá-los de perto. Assim, além da corda de macaco, com a qual eu de quando em quando puxava o pobre sujeito de uma vizinhança próxima demais à goela do que parecia um tubarão particularmente feroz, ele era provido de ainda outra proteção. Suspensos por sobre o costado em um dos estrados, Tashtego e Daggoo brandiam continuamente sobre sua cabeça um par de afiadas pás baleeiras, com as quais matavam tantos tubarões quantos conseguiam alcançar. Esse procedimento deles, é certo, era muito desinteressado e benevolente. Queriam o melhor bem-estar de Queequeg, admito; mas, em seu zelo apressado por ajudá-lo, e pela circunstância de que tanto ele quanto os tubarões às vezes ficavam meio ocultos pela água turvada de sangue, aquelas pás indiscretas chegavam mais perto de amputar uma perna que uma cauda. Mas o pobre Queequeg, suponho, esforçando-se e arquejando ali com aquele grande gancho de ferro, o pobre Queequeg, suponho, apenas rezava a seu Yojo e entregava a vida nas mãos de seus deuses.

Bem, bem, meu caro camarada e irmão gêmeo, pensei, enquanto recolhia e depois afrouxava a corda a cada ondulação do mar, que importa isso, afinal? Não és tu a preciosa imagem de cada um e de todos nós, homens neste mundo baleeiro? Esse oceano insondado em que arquejas é a Vida; esses tubarões, teus inimigos; essas pás, teus amigos; e, entre tubarões e pás, estás em triste aperto e perigo, pobre rapaz.

Mas coragem! há bom ânimo reservado para ti, Queequeg. Pois agora, com lábios azuis e olhos injetados, o selvagem exausto enfim sobe pelas enxárcias e fica todo gotejante e involuntariamente trêmulo por sobre o costado; o despenseiro avança e, com olhar benevolente e consolador, entrega-lhe, o quê? Um conhaque quente? Não! entrega-lhe, ó deuses! entrega-lhe uma xícara de gengibre morno com água!

"Gengibre? Sinto cheiro de gengibre?", perguntou Stubb, desconfiado, aproximando-se. "Sim, isto deve ser gengibre", espiando a xícara ainda não provada. Então, ficando por algum tempo como se incrédulo, caminhou calmamente em direção ao despenseiro espantado, dizendo devagar: "Gengibre? gengibre? e terás a bondade de me dizer, Mr. Dough-Boy, onde reside a virtude do gengibre? Gengibre! é gengibre o tipo de combustível que usas, Dough-Boy, para acender fogo neste canibal trêmulo? Gengibre! que diabo é gengibre? Carvão marinho? lenha? fósforos lucíferos? isca? pólvora? que diabo é gengibre, digo eu, para ofereceres esta xícara ao nosso pobre Queequeg aqui?"

"Há algum movimento sorrateiro da Sociedade de Temperança por trás desse negócio", acrescentou de repente, aproximando-se agora de Starbuck, que acabara de vir da proa. "Veja essa canequinha, senhor: cheire-a, por favor." Então, observando o semblante do imediato, acrescentou: "O despenseiro, Mr. Starbuck, teve a cara de oferecer esse calomelano e jalapa a Queequeg, ali, neste instante saído da baleia. O despenseiro é boticário, senhor? e posso perguntar se este é o tipo de amargo com que ele sopra de volta a vida para um homem meio afogado?"

"Espero que não", disse Starbuck, "é coisa pobre o bastante."

"Sim, sim, despenseiro", gritou Stubb, "vamos te ensinar a drogar um arpoeiro; nada de remédio de boticário aqui; queres nos envenenar, é? Fizeste seguro sobre nossas vidas e queres nos assassinar a todos, e embolsar o dinheiro, é?"

"Não fui eu", gritou Dough-Boy, "foi tia Charity que trouxe o gengibre a bordo; e mandou que eu nunca desse bebidas fortes aos arpoeiros, só esta ginger-jub, como ela chamou."

"Ginger-jub! seu tratante gengibrado! toma essa! e corre aos armários, e pega coisa melhor. Espero não fazer mal, Mr. Starbuck. São ordens do capitão, grogue para o arpoeiro sobre uma baleia."

"Basta", respondeu Starbuck, "só não o bata de novo, mas..."

"Oh, eu nunca machuco quando bato, exceto quando bato numa baleia ou coisa desse tipo; e este sujeito é uma doninha. O que o senhor ia dizendo?"

"Só isto: desce com ele, e pega tu mesmo o que quiseres."

Quando Stubb reapareceu, vinha com uma garrafa escura numa mão e uma espécie de caixa de chá na outra. A primeira continha bebida forte, e foi entregue a Queequeg; a segunda era o presente de tia Charity, e foi livremente entregue às ondas.

1/1
Menu

Fazer anotação