Universo da obra
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Capítulo 1 - O fidalgo tomado pelos livros
Na Mancha, onde o horizonte parece repetir a mesma promessa até cansar os olhos, vivia um fidalgo de nome Alonso Quijano. Tinha casa antiga, renda curta, armas herdadas e uma paciência estranha para suportar tanto a pobreza discreta quanto a grandeza imaginada. Era homem de mesa simples, de conversas cerimoniosas e de uma sólida melancolia que se escondia sob modos corretos.
O mundo ao redor seguia seu curso comum: lavouras, dívidas, visitas, domingos, notícias velhas e pequenas disputas de vizinhança. Alonso, porém, habitava outro ritmo. Quando a noite caía e a casa aquietava, ele se entregava aos livros de cavalaria com uma devoção que já passava da leitura para a febre. Os cavaleiros que encontrava nas páginas eram mais vivos que muitos homens da aldeia. Suas batalhas pareciam mais verdadeiras que os negócios do dia. Suas damas, mais luminosas que qualquer rosto visto à luz ordinária.
Leu tanto que as fronteiras internas começaram a ceder. Primeiro confundiu nomes. Depois confundiu épocas. Por fim, passou a acreditar que o mundo estava apenas mal vestido: por baixo da poeira das estradas havia castelos, por trás de lavradores havia encantadores, e dentro de cada injustiça pequena dormia uma aventura esperando espada, juramento e coragem.
Os parentes e conhecidos percebiam nele uma ausência cada vez mais funda. Falavam com Alonso, mas ele respondia como quem escuta chamados vindos de uma torre distante. Onde os outros viam um homem envelhecendo, ele sentia nascer uma missão. O século podia rir; os costumes podiam ter mudado; os heróis podiam ter sido arquivados como exageros de papel. Ainda assim, alguém precisava erguer-se contra a banalidade.
Foi então que voltou os olhos para as armas antigas guardadas na casa. Estavam gastas, incompletas, mais lembrança que defesa. Alonso limpou o metal como quem restaura uma aliança. Ajustou peças, improvisou encaixes, emendou falhas com zelo quase sagrado. A armadura não precisava ser perfeita; precisava ser aceita por sua vontade. E sua vontade, naquele momento, era mais firme que ferro novo.
Faltava-lhe também um cavalo digno. Encontrou no velho Rocinante mais que um animal cansado: encontrou um companheiro de destino. O nome veio como título, não como apelido. Rocinante seria, dali em diante, montaria de cavaleiro andante, testemunha dos caminhos e das quedas, corpo magro sustentando uma fantasia imensa.
Restava escolher o próprio nome. Alonso Quijano pertencia aos registros, às terras, aos almoços pobres e aos vizinhos que lembravam sua idade. Para a estrada, era preciso outro ser. Depois de muitas combinações, pesando sonoridade, linhagem e glória futura, chamou-se Dom Quixote de la Mancha. O nome parecia conter território e destino, como se a planície inteira pudesse acompanhá-lo em cada passo.
Nenhum cavaleiro, contudo, se completa sem uma dama. Alonso pensou em Aldonza Lorenzo, mulher real, distante e simples, e a elevou até que coubesse no altar de sua imaginação. De Aldonza fez Dulcineia del Toboso: senhora perfeita, razão de proezas, luz que justificaria perigos ainda inexistentes. Não importava se ela sabia ou consentia. Para Dom Quixote, a grandeza muitas vezes começava antes que a realidade fosse consultada.
Na madrugada escolhida, saiu sem alarde. A casa ficou para trás como uma pele antiga. O ar frio parecia inaugurar uma era. Dom Quixote montou Rocinante e avançou pela estrada com a solenidade de quem acredita que o mundo, enfim, será obrigado a revelar sua forma secreta. A primeira aventura talvez estivesse a poucas léguas; talvez já tivesse começado no instante em que um homem decidiu que a vida comum não bastava. E assim, entre a loucura e a fidelidade a um sonho, nasceu o cavaleiro. Ele nasceu porque já não suportava viver num mundo que não pedisse nada.
Adaptação literária em português moderno, com tom mais adulto e narrativo, construída por Eder B. Jr. a partir da obra original em domínio público de Miguel de Cervantes. Esta edição preserva a força simbólica, a ironia e a grandeza trágico-cômica de Dom Quixote, preparando a obra para leitura em capítulos e futuras adaptações visuais.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
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