Capítulo 71 - O Cavaleiro dos Espelhos
Capítulo 71 - O Cavaleiro dos Espelhos
A noite depois da carreta da Morte encontrou Dom Quixote e Sancho sob árvores altas, com o corpo pedindo descanso e a cabeça ainda ocupada por máscaras, pedras, encantadores e Dulcineia. Por insistência de Sancho, o cavaleiro comeu alguma coisa do que vinha nos alforjes. O escudeiro, entre uma dentada e outra, alegrou-se por ter escolhido as crias das éguas em vez dos despojos da primeira aventura, pois as coroas e asas dos farsantes seriam folha barata, pano pintado e lata sem proveito. Dom Quixote aproveitou o assunto para defender a comédia: os atores mostram aos homens as figuras do mundo, e quando a peça termina todos deixam roupas, títulos e diferenças, assim como a morte despe os vivos antes da sepultura.
Sancho achou boa a comparação e acrescentou outra, a do jogo de xadrez, em que cada peça manda, serve, avança ou protege enquanto dura a partida, mas todas acabam misturadas no mesmo saco. Dom Quixote elogiou-lhe a discrição crescente. O escudeiro respondeu que alguma coisa da conversa do amo havia de fertilizar seu entendimento seco, como esterco bom melhora terra ruim. O cavaleiro riu da retórica campestre de Sancho, percebendo que o companheiro, desde a primeira saída, aprendera a falar com mais ambição, embora sempre corresse o risco de escorregar do alto de uma frase para o barro de um provérbio mal colocado.
Depois soltaram o rucio e deram a Rocinante a liberdade permitida pelas leis da cavalaria, pois Dom Quixote consentia tirar-lhe o freio, mas não a sela enquanto dormissem ao ar livre. O narrador, nesse ponto, lembrou a amizade dos dois animais, tão constante que, segundo fama antiga, mereceria capítulos próprios se a dignidade da história permitisse. Rocinante e o rucio comiam juntos, coçavam-se quando podiam e pareciam entender melhor a paz do que muitos homens. Sancho adormeceu ao pé de uma árvore. Dom Quixote cochilou junto de outra, sem entregar-se por inteiro ao sono, porque cavaleiro em campo aberto deve repousar como quem guarda metade do ouvido armado.
Pouco tempo depois, um ruído o despertou. Viu dois homens a cavalo que chegavam ao mesmo lugar. Um deles apeou-se com peso de armas, pediu ao companheiro que tirasse os freios dos animais e deitou-se no chão dizendo que aquele silêncio convinha a seus pensamentos amorosos. O som das peças metálicas bastou para Dom Quixote concluir que se achava diante de cavaleiro andante. Acordou Sancho com dificuldade e falou baixo: havia aventura. Sancho perguntou onde estava essa senhora aventura, ainda preso ao sono. O amo apontou o homem armado, estendido na terra com sinais de tristeza, e mandou que escutasse, pois o recém-chegado preparava instrumento e peito para cantar.
A voz do desconhecido começou soneto de amor, dirigido a uma senhora chamada Casildea de Vandalia. Cantou obediência, sofrimento e desejo de que a dama marcasse o modo de sua pena. Ao fim, soltou suspiro arrancado de lugar fundo e lamentou que Casildea consentisse suas peregrinações. Disse haver forçado cavaleiros de Navarra, Leão, Tartesso, Castela e Mancha a confessar que ela era a mulher mais formosa do mundo. A palavra Mancha tocou Dom Quixote. Ele sussurrou a Sancho que aquilo não podia ficar de pé, pois nenhum cavaleiro da Mancha confessara beleza superior à de Dulcineia. Mesmo assim, decidiu ouvir mais antes de interromper.
O cavaleiro desconhecido percebeu que havia gente próxima. Ergueu-se e perguntou se os que estavam ali pertenciam ao número dos contentes ou dos aflitos. Dom Quixote respondeu que dos aflitos. O outro convidou-os a aproximar-se, dizendo que chegariam à própria tristeza. Sentaram-se juntos no chão, com cortesia de homens que em poucas horas poderiam desejar quebrar a cabeça um do outro. O Cavaleiro do Bosque, como então se apresentava, reconheceu em Dom Quixote outro professor da cavalaria andante e perguntou se também era enamorado. Dom Quixote respondeu que por desventura sim, embora pensamentos bem postos devam ser contados entre graças altas.
Sancho, ouvindo falar de Dulcineia, afirmou que sua senhora era mansa como cordeira e branda como manteiga. O Cavaleiro do Bosque estranhou que um escudeiro falasse no meio da conversa de seu amo e apontou o próprio servidor, calado e enorme, como exemplo de reserva. Sancho não gostou da censura. O escudeiro do Bosque tomou-o pelo braço e propôs que se afastassem para falar escudeirilmente, deixando os cavaleiros entregues às histórias de amor. Sancho aceitou de boa vontade. Assim, os amos ficaram sentados na noite, medindo tristezas e damas, enquanto os dois escudeiros se retiraram para uma conversa que prometia menos solenidade e talvez mais verdade.