Capítulo 31 - A Princesa Micomicona Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 31 de 133
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Capítulo 31 - A Princesa Micomicona

Capítulo 31 - A Princesa Micomicona

Depois de ouvir Doroteia e reconhecer a utilidade de seu disfarce, o cura ajustou o plano com a delicadeza de quem mexe em mecanismo frágil. Dom Quixote não sairia da penitência por conselho, vergonha ou ordem. Sairia por dever. Era preciso dar-lhe uma causa que parecesse maior que sua dor e, sobretudo, que não diminuísse Dulcineia diante dele. Assim nasceu, entre pedras de Serra Morena, a Princesa Micomicona.

Doroteia aceitou o papel com inteligência rápida. O nome soava distante, quase ridículo para ouvidos práticos, mas bastante próprio para os livros que alimentavam Dom Quixote. Seria uma princesa despojada de seu reino por gigante ou inimigo monstruoso, obrigada a buscar o mais famoso cavaleiro do mundo. O cura compôs a base da súplica; o barbeiro acrescentou detalhes de traje e postura; Sancho, animado, garantiu que seu amo engoliria a aventura inteira se ela viesse com promessa de reino e honra.

Antes de se aproximarem de Dom Quixote, combinaram as cautelas. Doroteia não deveria rir, por mais extravagantes que fossem as respostas do cavaleiro. O cura ficaria um pouco afastado, pronto para emendar qualquer erro. O barbeiro ajudaria com a gravidade do rosto. Sancho seria o elo entre a princesa e o penitente, embora ninguém confiasse plenamente em sua memória quando o assunto pedia palavras altas.

Encontraram Dom Quixote no estado em que Sancho o havia deixado: magro de intenção, sujo de serra, armado de fantasias e convencido de que a distância de Dulcineia tornava sua dor mais nobre. O cavaleiro recebeu primeiro Sancho com uma mistura de ansiedade e majestade. Quis saber da mensagem, da dama, dos sinais de amor, das palavras exatas. Sancho desviou como pôde, dizendo que tudo corria por caminhos de grande segredo.

Então Doroteia apareceu. Ajoelhou-se diante de Dom Quixote com tanta precisão que, por um instante, até o cura acreditou na cena. Chamou-o de cavaleiro invencível, amparo de aflitos, terror de soberbos e espelho da cavalaria. Disse vir de terras longínquas, do reino de Micomicão, onde sua casa fora tomada por força injusta. Só a fama de Dom Quixote chegara até ela como esperança. Por isso passara por perigos, montes e desventuras até encontrar o braço capaz de restituir-lhe o que perdera.

Dom Quixote ergueu-se como se a serra inteira tivesse mudado de nome. A penitência, que há pouco parecia destino final, virou intervalo. Se uma princesa vinha pedir socorro, o cavaleiro não podia continuar contando suspiros entre árvores. A honra o chamava por voz feminina, e a honra, em sua cabeça, sempre falava mais alto que a fome, a dor e o bom senso.

Respondeu com solenidade. Prometeu defender a princesa, recuperar seu reino, castigar o ofensor e não aceitar recompensa alguma além da glória e do direito de oferecer todos os feitos a Dulcineia del Toboso. Doroteia baixou os olhos para esconder o alívio. O cura disfarçou um sorriso. O barbeiro manteve a expressão grave de quem assiste a julgamento real. Sancho, mais interessado nas consequências práticas, perguntou com cuidado se nesse reino haveria ilha disponível para escudeiro fiel.

Dom Quixote repreendeu-o pela impaciência, mas não lhe tirou a esperança. Se a aventura fosse tão grande quanto parecia, prêmios haveria. Sancho endireitou-se na sela invisível de seus sonhos. A Princesa Micomicona, sem perder o tom, confirmou que serviços leais não seriam esquecidos. Aquilo bastou para que o escudeiro se tornasse partidário entusiasmado da princesa.

O cavaleiro quis partir imediatamente. A penitência estava concluída por necessidade superior. Dulcineia, se era senhora de seu coração, compreenderia que o dever mandava primeiro socorrer uma dama aflita. Essa lógica, perfeitamente torta, serviu ao plano. O cura tratou de apressar o movimento antes que Dom Quixote pedisse genealogias, brasões ou mapas do reino de Micomicão.

Enquanto preparavam a saída, Cardenio, mantido à distância para evitar confusão, ouviu parte da conversa e reconheceu em Doroteia uma dor irmã da sua. Ainda faltava tempo para juntar todas as feridas; a presença dele lembrava que a ficção armada para Dom Quixote caminhava sobre desgraças reais. Fernando, Lucinda, Doroteia e Cardenio formavam uma rede que esperava reparação; Dom Quixote, sem saber, começava a ser conduzido para dentro dela.

Sancho aproximou-se do amo e tentou resolver de vez o problema da carta perdida. Inventou que Dulcineia recebera a mensagem como se a tivesse recebido, ou que a receberia de modo misterioso, ou que já sabia de tudo por fama. As frases saíam confusas, mas Dom Quixote estava ocupado demais com a princesa para desmontá-las. A nova aventura cobria as falhas da antiga, como se uma fantasia servisse de remendo para outra.

O grupo deixou o lugar da penitência. Rocinante foi chamado de volta ao serviço, Sancho recuperou sua função de escudeiro, Doroteia sustentou o porte de princesa, o cura e o barbeiro caminharam como autores discretos de uma peça improvisada. Atrás ficavam os gestos extremos de Dom Quixote na serra; à frente, ainda invisível, esperava a estrada que os levaria de novo ao mundo das vendas, encontros e reconhecimentos.

Dom Quixote seguia satisfeito. Para ele, nenhuma fraude havia. Uma dama pedira socorro, e ele partia para corrigir o mundo. Para os outros, havia uma mistura estranha de mentira e caridade. Fingiam uma princesa para resgatar um homem; usavam a loucura para desviá-la de si mesma; transformavam Doroteia, vítima de engano, em senhora consciente de uma invenção. E, naquele passo incerto para fora de Serra Morena, a ficção começou a trabalhar a favor da verdade.

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