Capítulo 91 - A resposta ao repreensor Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 91 de 133
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Capítulo 91 - A resposta ao repreensor

Capítulo 91 - A resposta ao repreensor

Dom Quixote levantou-se tremendo, não de medo, mas de ira contida. O lugar, a presença dos duques e o respeito devido ao estado do eclesiástico atavam-lhe as mãos, porém não a língua. Respondeu que repreensões santas pedem brandura, conhecimento da culpa e intenção de remédio, não afronta pública nem palavras como tonto e mentecato lançadas sem exame. Perguntou com que direito alguém criado em vida estreita, sem haver pisado os caminhos do mundo, entrava nas casas alheias para dar leis à cavalaria. Vagar pela terra, buscando asperezas, perigos e trabalhos por onde os bons sobem à memória, era ofício alto, longe de passatempo vazio.

Declarou que era cavaleiro e morreria cavaleiro se Deus permitisse. Cada um segue o caminho que recebeu: uns pela estreita senda da religião, outros pela das letras, outros pela das armas. Os cavaleiros andantes tomam sobre si trabalho, fome, vigília, ferida e risco para socorrer órfãos, viúvas e pessoas oprimidas. Se homens nobres, generosos e valentes o julgassem, aceitaria a sentença com honra; ser chamado de louco por quem desconhece o ofício não lhe tirava um ardite. Sua casa, mulher e filhos, que o eclesiástico mandara governar, nem vinham ao caso. Não os tinha, e, se os tivesse, o dever de seu braço continuaria preso à ordem da cavalaria.

O eclesiástico ficou encolerizado com a resposta e deixou a mesa, acusando os duques de favorecerem desatino. O duque, para reparar o choque e alimentar a farsa, assegurou a Dom Quixote que a honra da casa estava a seu serviço. Falou também a Sancho sobre o governo prometido. O escudeiro, que acompanhava tudo com olhos atentos, sentiu a ilha aproximar-se como fruta madura. A duquesa, com arte ainda mais fina, pediu a Dom Quixote que lhe descrevesse Dulcineia. O cavaleiro suspirou. Descrever sua senhora seria tarefa para pintores antigos, escultores famosos e oradores de língua soberana; contudo, a dor recente lhe apagava a imagem, porque a vira mudada em lavradora pelos encantadores.

Os duques, que conheciam a história impressa, perguntaram com aparente inocência se Dulcineia existia de fato ou se era criação da mente do cavaleiro. Dom Quixote respondeu que Deus sabia a verdade inteira e que certas averiguações não devem ser levadas até o fundo. Ele não havia inventado sua senhora no sentido baixo da palavra; contemplava-a como deve ser contemplada a dama capaz de sustentar um cavaleiro: bela, grave, honesta, cortês, agradecida, alta pelo merecimento e pela virtude. Quando se falou da origem dela e do trigo que Sancho dissera tê-la visto joeirar, Dom Quixote atribuiu tudo à malícia de encantadores. Se a transformaram diante dele em mulher rústica, bem poderiam ter mudado perlas em trigo diante do escudeiro.

A conversa seguia entre solenidade e burla quando entrou uma cerimônia inesperada. Quatro donzelas trouxeram bacia de prata, jarro, toalhas finas e sabão perfumado. Em vez de lavar as mãos de Dom Quixote, puseram-lhe a bacia debaixo da barba e começaram a ensaboá-lo com cuidado teatral. O cavaleiro, supondo ser costume do palácio, estendeu a barba o quanto pôde e deixou-se lavar, embora o sabão lhe cobrisse rosto e olhos. As moças fingiram falta de água e deixaram-no um momento naquela figura branca e imóvel, enquanto todos na sala lutavam contra o riso. O duque, percebendo o risco de a burla ficar descoberta, mandou que o lavassem também da mesma forma.

Assim se salvou a aparência de costume nobre. Dom Quixote foi limpo e enxuto com reverências. Sancho observou tudo e comentou que talvez, naquele palácio, também se lavassem barbas de escudeiros. A duquesa, ouvindo, mandou que o maestresala cumprisse a vontade de Sancho ao pé da letra. Pouco depois, enquanto Dom Quixote conversava com os duques, entrou Sancho assustado, com pano grosseiro ao peito, cercado por rapazes de cozinha que traziam água suja de lavar louça e tentavam pôr-lhe uma gamela debaixo da barba. Ele protestava com razão: se ao amo deram água de anjos e toalhas finas, não cabia a ele receber lixívia de cozinha e mãos encardidas.

Sancho ameaçou quem lhe tocasse um fio de barba. Dom Quixote pediu licença aos duques e ordenou que deixassem seu escudeiro em paz. A duquesa, rindo por dentro e fingindo indignação por fora, repreendeu os criados como se tivessem ofendido personagem de alto estado. Chamou-os ministros negligentes da limpeza e censurou o uso de gamelas e panos miseráveis onde caberiam metais nobres e toalhas alemãs. Os criados acreditaram na repreensão, retiraram o pano do peito de Sancho e fugiram confusos. O escudeiro ajoelhou-se diante da duquesa, agradecido como quem escapara de suplício. Ela prometeu compensá-lo fazendo o duque apressar o governo da ilha, e convidou-o a passar a tarde em sua companhia, onde ele teria de trocar a sesta por conversa.

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