Capítulo 18 - Sancho manteado Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 18 de 133
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Capítulo 18 - Sancho manteado

Capítulo 18 - Sancho manteado

Dom Quixote já havia deixado a venda, certo de que partia de um castelo encantado onde sua honra o dispensava de qualquer pagamento. Sancho, porém, ficou para trás, cercado pelo vendeiro e por alguns hospedes que tinham entendimento menos literário das despesas. A conta estava ali, clara e pesada: palha, cama, vinho, azeite, estragos, cuidados e paciência. E se o cavaleiro não pagava, alguém haveria de responder por ele.

Sancho tentou primeiro a diplomacia. Explicou que era escudeiro de cavaleiro andante e que, por isso, talvez compartilhasse dos privilégios do amo. Disse que a ilha prometida ainda não chegara, mas que, quando chegasse, poderia recompensar todos com generosidade. O vendeiro ouviu a promessa de governo futuro como quem ouve vento bater em porta quebrada. Queria moedas presentes, não castelos imaginados nem ilhas por nascer.

Do lado de fora, Dom Quixote percebeu a demora e chamou Sancho. O escudeiro respondeu com voz aflita, pedindo ajuda. O cavaleiro voltou-se para a porta, mas encontrou-a fechada e protegida. A venda, que para ele era castelo, parecia agora castelo de verdade no unico ponto que importava: tinha barreira entre ele e seu companheiro.

Os homens da venda, cansados da conversa e animados por uma crueldade brincalhona, agarraram Sancho. Trouxeram uma manta e, antes que o pobre escudeiro entendesse a sentença, colocaram-no no meio dela. Cada um tomou uma ponta. Sancho abriu os olhos com pressentimento terrível. Num instante, foi lançado para cima como saco de farinha em feira, subindo e descendo entre risos, gritos e protestos.

Do lado de fora, Dom Quixote via o companheiro subir no ar e descer sem poder socorre-lo. Gritava ameaças contra os malfeitores, prometia castigos de cavaleiro e chamava aquilo de encantamento infame. Mas a porta, o muro e a fraqueza de seu corpo impediam qualquer façanha. Sua espada nada podia contra a distância curta e absoluta que separava a imaginação da fechadura.

Sancho, a cada arremesso, perdia um pouco mais a fé na cavalaria. Não havia ilha que justificasse tanto voo indesejado. Quando subia, via o ceu; quando descia, via rostos rindo; no meio, via a vida inteira como uma sucessão de promessas feitas pelo amo e pagas pelo escudeiro. Pediu misericordia, chamou pela Virgem, invocou santos e, por fim, chamou por qualquer pessoa que soubesse pôr fim a mantas.

Maritornes assistia de longe com pena inquieta. A filha do vendeiro também se compadeceu. Talvez por riso satisfeito, talvez por cansaço, talvez porque toda crueldade de grupo se desfaz quando perde novidade, os homens enfim pararam. Sancho caiu no chão sem grande dignidade, mas inteiro o bastante para gemer. Deram-lhe de beber, e Maritornes, num gesto simples, trouxe agua para aliviar-lhe a garganta seca.

Quando finalmente conseguiu sair, Sancho encontrou Dom Quixote inflamado de fúria impotente. O cavaleiro dizia que aqueles encantadores haviam de pagar caro, e que só forças sobrenaturais podiam tê-lo impedido de entrar. Sancho, ainda tonto, respondeu que os encantadores tinham mãos grossas, riso alto e um conhecimento admirável de mantas. Se eram sobrenaturais, escondiam muito bem a grandeza.

Dom Quixote tentou consolar o escudeiro com promessas de vingança futura e recompensas maiores. Sancho, agarrado ao asno como quem se segura à última parte confiável do mundo, pediu apenas que se afastassem da venda. Se aquilo era castelo, preferia dormir ao relento; se era encantamento, preferia encanto sem hospedagem; se era aventura, preferia a estrada vazia.

Partiram devagar. Rocinante levava Dom Quixote com a solenidade possível a um cavalo ainda dolorido. O asno carregava Sancho, que se mexia com cuidado, como se cada osso tivesse adquirido opinião própria. Atrás deles ficava a venda, com suas risadas, sua conta não paga e sua lembrança amarga. Adiante, a estrada abria novo campo para os erros do cavaleiro e a paciência do escudeiro.

Dom Quixote, recuperando aos poucos a voz de comando, afirmou que o mundo estava cheio de injustiças e que aquela sofrida experiência apenas confirmava a necessidade da cavalaria andante. Sancho não discutiu. Sabia que certas ideias do amo eram como rodas de moinho: giravam mesmo depois de bater em alguém. Preferiu guardar silêncio e calcular, com tristeza prática, quantas pancadas ainda cabiam entre ele e a prometida ilha.

Assim deixaram a venda para trás. O episódio acabava, mas não seu efeito. Dom Quixote seguia mais convencido de encantamentos; Sancho, mais conhecedor do peso das consequências. E entre os dois, como sempre, caminhava a estranha força daquela amizade: uma mistura de lealdade, engano, fome, esperança e poeira.

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