Capítulo 117 - Imagens, pastores e touros Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 117 de 133
Obra Menu

Capítulo 117 - Imagens, pastores e touros

Capítulo 117 - Imagens, pastores e touros

Quando se viu em campo aberto, longe das graças de Altisidora e das cortesias interessadas do castelo, Dom Quixote sentiu que voltava ao elemento natural de sua vida. Falou a Sancho da liberdade como o maior dom concedido aos homens, superior aos tesouros da terra e do mar, pois os banquetes recebidos com obrigação de agradecimento lhe pareciam uma espécie de prisão coberta de toalhas limpas e bebidas frescas. Sancho, menos inclinado a filosofia quando havia dinheiro em jogo, respondeu que a gratidão também devia incluir os duzentos escudos de ouro dados pelo mordomo do duque, bolsa que levava junto ao peito como remédio cordial, pois nem toda pousada futura seria castelo, e muitas podiam acabar em pancadas.

Pouco adiante encontraram uma dúzia de lavradores que comiam num prado, junto de volumes cobertos por panos brancos. Dom Quixote perguntou o que levavam com tanto cuidado, e os homens descobriram imagens destinadas ao retábulo de sua aldeia. Primeiro apareceu São Jorge a cavalo, com a lança cravada na serpente; depois São Martinho, repartindo a capa com o pobre; em seguida Santiago, armado e vitorioso contra os mouros; por fim São Paulo caindo do cavalo no instante de sua conversão. O cavaleiro comentou cada figura como se reconhecesse irmãos de ofício, santos que haviam combatido pela milícia divina enquanto ele, pecador, pelejava no mundo humano. Sancho achou aquela aventura excelente, pois dela saíam sem fome, sem espadas puxadas e sem corpos batidos no chão.

O encontro levou Dom Quixote a discorrer sobre agouros, prudência cristã e histórias antigas, corrigindo superstições com a solenidade de quem convertia qualquer acaso em lição. Sancho, ainda lembrado de Altisidora, perguntou o que a moça vira nele para perder a vergonha daquele modo. Dom Quixote explicou que há formosura do corpo e formosura da alma, e que entendimento, honestidade, cortesia e bom proceder podiam mover amor mesmo quando a figura exterior não ajudava muito. Sancho aceitou a doutrina com a reserva de quem examinara o amo da cabeça aos pés e encontrara nele mais motivos de espanto que de paixão. Conversavam assim quando entraram por uma mata fora da estrada e Dom Quixote se viu preso em redes de fio verde estendidas entre árvores.

Já se preparava para romper as redes, tomando-as por artifício de encantadores vingativos, quando surgiram duas jovens vestidas como pastoras, ricas demais para qualquer rebanho verdadeiro. Elas explicaram que famílias principais de uma aldeia próxima haviam montado ali uma Arcádia de brincadeira, com rapazes e moças vestidos de pastores, tendas junto a um arroio, églogas de Garcilaso e Camões ensaiadas e redes preparadas para apanhar passarinhos. Ao reconhecerem Dom Quixote e Sancho pela história impressa, receberam-nos com admiração e pediram que se juntassem à festa. Um irmão de uma delas os levou às tendas, onde mais de trinta pastores fingidos os cercaram com curiosidade, oferecendo mesa limpa e abundante, lugar de honra e palavras corteses.

Depois de comer, Dom Quixote levantou a voz e declarou que o maior pecado dos homens, mais que a soberba em sua conta, era a ingratidão. Como não podia pagar na mesma medida a mercê recebida, oferecia o que possuía: defenderia por dois dias, no caminho real de Zaragoza, que aquelas pastoras disfarçadas eram as mais belas e corteses do mundo, ficando excluída apenas Dulcineia do Toboso, senhora absoluta de seus pensamentos. Sancho, comovido, perguntou aos presentes se alguém ainda ousaria chamar louco a um homem que falava daquele modo. Dom Quixote irritou-se com o comentário, mandou-o calar e preparar Rocinante, pois o agradecimento, uma vez prometido, precisava tomar forma diante de quem passasse pela estrada.

Pôs-se então no meio do caminho, armado de escudo e lança, chamando cavaleiros, escudeiros e viandantes a confessarem a superior beleza das ninfas daquele prado. Repetiu o desafio duas vezes sem que aparecesse adversário humano, até que a sorte lhe mandou adversários de chifres. Uma multidão de vaqueiros vinha conduzindo touros bravos e mansos para uma corrida, gritando que o homem se afastasse se não quisesse ser despedaçado. Dom Quixote tomou o aviso por afronta, respondeu que nem os touros do Jarama o fariam recuar e exigiu confissão imediata da verdade que proclamara. A manada não discutiu cavalaria: passou por cima de Dom Quixote, Sancho, Rocinante e rucio, deixando todos no chão. O cavaleiro ainda correu atrás dos animais, chamando-os à batalha, porém o cansaço o venceu. Sem voltar à Arcádia para despedidas, seguiram viagem com mais vergonha que glória.

1/1
Menu

Fazer anotação