Capítulo 42 - O fim do curioso impertinente
Capítulo 42 - O fim do curioso impertinente
O cura respirou antes de continuar, como quem sabe que a história já não pode ser salva. Na venda, ninguém pediu pausa. Todos queriam chegar ao fim, talvez porque, quando uma ruína começa, o coração humano insiste em acompanhá-la até a última pedra. Camila ainda resistia, Lotário ainda hesitava, Anselmo ainda queria saber; mas a casa já estava cheia demais de segredo para permanecer de pé.
Leonela, a criada, tornou-se peça decisiva. Ela guardava seus próprios encontros, suas próprias imprudências, seus próprios medos. Camila, cercada pela insistência de Lotário e pela ausência fabricada de Anselmo, confiou nela além do que convinha. Lotário, temendo ser descoberto, aproximou-se por atalhos de palavra. A prudência, que antes ainda aparecia em lampejos, começou a ceder ao cálculo de sobrevivência.
Camila viu-se presa entre males. Se revelasse tudo, exporia a loucura de Anselmo e a culpa de Lotário, mas também arrastaria seu nome para o centro da suspeita. Se calasse, continuaria vivendo dentro da armadilha. Lotário, cada vez mais tomado pelo desejo, já não vinha só como ameaça de fora; apresentava também seu próprio sofrimento, como se isso pudesse diminuir a injustiça cometida contra ela.
Foi assim que a resistência começou a cansar. A honra de Camila não faltara; faltava-lhe trégua. No princípio ela se defendia em terreno claro; agora pisava terreno turvo. Lotário insistia; Anselmo vigiava; Leonela complicava; a casa, antes abrigo, virava palco. A queda não veio como raio. Veio como telhado que, depois de muitas infiltrações, cede.
O cura leu com sobriedade, sem prazer no desastre. Lotário e Camila acabaram envolvidos naquilo que Anselmo havia querido apenas fingir. A prova criou a culpa que buscava descobrir. O amigo tornou-se traidor; a esposa, cercada e vencida por circunstâncias que outros prepararam, entrou no erro; o marido, autor do experimento, tornou-se vítima de sua própria máquina.
Na venda, Sancho fez o sinal da cruz sem muito método. Dom Quixote, inquieto, perguntou se não havia cavaleiro que interviesse a tempo. O cura respondeu que, nessa história, o inimigo estava dentro da prudência mal usada. Dom Quixote não gostou da resposta. Preferia gigantes. Gigantes, ao menos, ficavam do lado de fora.
Anselmo, desconfiado e faminto de certeza até o fim, escondeu-se para observar. Queria ver a verdade com os próprios olhos. Viu o bastante para destruir-se. A cena que encontrou não lhe deu a satisfação amarga de quem prova uma suspeita antiga; deu-lhe o horror de reconhecer que a suspeita nascera dele. Não descobrira uma traição anterior. Fabricara a ocasião, alimentara o perigo, empurrara amigo e esposa para a beira e agora se espantava com a queda.
Camila fugiu. Lotário também fugiu. Leonela desapareceu em seu próprio medo. A casa de Anselmo, que no começo tinha amizade, casamento e reputação, ficou vazia de tudo que importava. O homem que quis testar a felicidade para possuí-la com mais segurança descobriu que a felicidade não suporta ser tratada como prisioneira.
Lotário buscou guerra distante e nela encontrou a morte. Camila, retirada para vida religiosa, morreu consumida por dor e vergonha. Anselmo, ao saber de tudo, adoeceu do entendimento tardio. Antes de morrer, escreveu a verdade: Camila não fora a primeira causa de sua ruína, nem Lotário sozinho. Sua curiosidade impertinente abrira a porta; seu desejo de provar o que deveria confiar pusera fogo na casa.
O cura leu essas últimas palavras mais baixo. A venda inteira escutava. O papel dizia, em resumo, que Anselmo morria por ter armado o engano que depois o feriu. Morria autor e vítima da mesma imprudência. A história encerrava-se sem consolo fácil. Ninguém saía limpo, e a raiz do mal ficava nomeada.
Quando terminou, o cura deixou as folhas sobre a mesa. A venda permaneceu quieta por alguns instantes. Doroteia foi a primeira a respirar fundo. Lucinda segurava as mãos juntas. Cardenio olhava para baixo, talvez pensando em Fernando, em amizade, em confiança traída. Fernando, por sua vez, parecia entender que certas histórias lidas por acaso podem acusar melhor que sermões preparados.
Sancho concluiu que homem que tem pão, casa, amigo e mulher honrada deve comer o pão, cuidar da casa, tratar bem o amigo e agradecer a mulher, sem inventar prova. O barbeiro concordou que essa era interpretação bastante útil. O vendeiro lamentou apenas que histórias tristes não ajudassem a cobrar hospedagem, embora admitisse que aquela tinha prendido os ouvintes.
Dom Quixote ficou dividido. Histórias sem armas raramente o satisfaziam, e ainda assim alguma coisa ali o incomodara. Disse que Anselmo errara por não confiar sua causa a cavaleiro andante antes que as coisas se perdessem. O cura não discutiu. Às vezes era melhor deixar que a loucura tirasse uma moral torta de uma verdade reta, desde que permanecesse quieta.
A leitura terminara, e com ela a venda voltava a si. O mundo principal, que ficara suspenso entre as folhas, começava a chamar de novo: a Princesa Micomicona ainda existia para Dom Quixote; Sancho ainda sonhava com ilha; o cura ainda precisava conduzir o fidalgo à aldeia; a estrada ainda podia trazer novos viajantes e novas confusões. Por um momento, todos ficaram sob o peso daquela narrativa inserida, como se tivessem visto uma pequena tragédia desenhar, em outra casa, os perigos de suas próprias vidas.
O cura guardou os papéis com cuidado. A venda, tão acostumada a pancadas e risos, havia abrigado uma lição amarga. E Dom Quixote, que tantas vezes confundia ficção com realidade, fora mantido quieto por uma ficção que falava da realidade mais crua. Era hora de voltar à ação principal. A história de Anselmo, Lotário e Camila ficou na mesa por algum tempo, invisível e pesada, como copo que ninguém ousa tocar depois de ouvir quebrar-se uma casa inteira.