Capítulo 83 - A dúvida de Cide Hamete
Capítulo 83 - A dúvida de Cide Hamete
O tradutor desta história conta que, ao chegar à aventura da cova de Montesinos, encontrou à margem do manuscrito palavras do próprio Cide Hamete Benengeli. O historiador confessava dificuldade em aceitar que tudo se passara exatamente como Dom Quixote narrara. As aventuras anteriores, ainda que estranhas, cabiam dentro do possível: moinhos, vendas, rebanhos, jaulas e leões eram coisas do mundo, mal interpretadas pelo cavaleiro. A cova, porém, parecia fora das medidas comuns. Ao mesmo tempo, Cide Hamete recusava acusar Dom Quixote de mentira, pois o tinha por fidalgo verdadeiro demais para inventar falsidade deliberada, ainda que a invenção lhe conviesse.
Por isso deixou o juízo ao leitor prudente. Se a aventura parecia apócrifa, não era culpa do historiador; se parecia verdadeira, também não exigia defesa dele. Escrevia-a sem afirmar nem negar, e lembrava rumor segundo o qual, perto da morte, Dom Quixote teria se retratado desse caso, dizendo que o compusera porque assentava bem ao tipo de histórias que lia. Tal nota, em vez de resolver o assunto, aumentava a força da dúvida. A história seguia assim: com um cavaleiro incapaz de mentir segundo seu caráter, uma visão incapaz de convencer segundo a razão, e um narrador honesto o bastante para registrar o impasse sem fingir certeza.
O primo, por sua parte, mostrava-se satisfeito. Disse que a jornada lhe rendera quatro proveitos: conhecera Dom Quixote, ouvira a matéria da cova, ganhara notícia sobre Guadiana e Ruidera e ainda recolhera indício antigo para provar a existência dos jogos de cartas no tempo de Carlos Magno, pois Durandarte acordara usando expressão que lhe parecia própria de baralho. Dom Quixote perguntou a quem dedicaria obras tão singulares, se algum dia conseguisse licença para imprimi-las. O primo respondeu que havia senhores e grandes na Espanha. Dom Quixote duvidou da quantidade, observando que muitos poderosos evitam receber livros para não se sentirem obrigados a agradecer trabalho de autor pobre.
O guia sugeriu que dormissem numa ermida próxima. O ermitão, antigo soldado e cristão discreto, tinha fama de caridoso e possuía casinha capaz de acolher hóspedes. Sancho perguntou logo se o tal ermitão tinha galinhas. Dom Quixote repreendeu a pressa do escudeiro, mas admitiu que os ermitões modernos não viviam como os antigos penitentes do deserto, vestidos de folhas e alimentados de raízes. Não dizia isso para diminuí-los, e sim para mostrar que as penitências mudam com os tempos. Em qualquer caso, concluiu, é melhor alguém fingir bondade do que exibir maldade sem pudor, pois a aparência de virtude ainda freia certos danos.
Enquanto tratavam disso, passou por eles um homem a pé, apressado, tangendo um macho carregado de lanças e alabardas. Dom Quixote chamou-o, curioso diante de tantas armas. O homem respondeu que não podia deter-se, porque as peças deveriam servir no dia seguinte. Se quisessem saber o motivo, encontrá-lo-iam na venda adiante, onde passaria a noite e contaria maravilhas. Dito isso, apressou o animal e seguiu. Dom Quixote, que sempre sentia fome de acontecimentos novos, decidiu mudar o plano. Iriam à venda, onde o homem das armas explicaria o caso. O primo ainda preferia a ermida, e Sancho apoiava qualquer caminho que prometesse comida ou bebida melhor que água.
Antes de seguir para a venda, resolveram passar pela ermida, ao menos para provar a hospitalidade anunciada. A sorte de Sancho, porém, mostrava-se amarga. O ermitão não estava em casa. Quem os recebeu foi uma mulher ligada ao lugar, e ela informou que o senhor nada tinha de vinho caro. Água, se quisessem, daria de muito boa vontade. Sancho suspirou como homem ferido. Disse que, se sua sede fosse de água, poços havia pelo caminho. Lembrou as bodas de Camacho e a casa de Dom Diego com dor quase devota. A abundância perdida crescia em sua memória como mesa eterna, e cada promessa de água parecia ofensa aos dias recentes.
Sem proveito na ermida, seguiram rumo à venda. Dom Quixote ia curioso pelo homem das armas; o primo, cheio de matéria para seus livros; Sancho, pobre de esperança líquida e cada vez mais convencido de que o mundo castiga o escudeiro que deixa festas ricas para acompanhar cavaleiro de cavernas. A cova de Montesinos ficava para trás, mas não abandonava o grupo. Dom Quixote carregava a certeza da visão; Sancho carregava a suspeita de haver alimentado, com sua mentira sobre Dulcineia, um encantamento maior do que podia governar; e Cide Hamete, em algum ponto do manuscrito, deixava ao leitor a tarefa ingrata de decidir onde termina a verdade e onde começa o sonho.