Capítulo 52 - O elmo em julgamento
Capítulo 52 - O elmo em julgamento
A venda ainda não terminara de acomodar o caso de Dom Luís quando outro fio antigo voltou a puxar a confusão. Bastou que entrasse no patio um homem com olhar de quem reconhece prejuízo antes de reconhecer pessoas. Era barbeiro de ofício, viajante de pouca sorte e dono, segundo ele mesmo, de uma bacia de barbear e de uma albarda que lhe haviam sido tomadas em estrada por um cavaleiro armado e por seu escudeiro. O homem olhou uma vez para Dom Quixote, outra para Sancho, e a memória lhe subiu ao rosto como fogo.
Ali estava, diante de todos, o ladrão de sua bacia. Ou, melhor dizendo, ali estava o cavaleiro que trazia na cabeça o objeto disputado, tratado com solenidade de elmo. Dom Quixote, ao perceber o olhar acusador, endireitou-se. Para ele, não havia motivo de vergonha: o elmo de Mambrino fora ganho em justa aventura contra inimigo vencido. Se alguém chamava aquilo de bacia, fazia-o por ignorância, malicia ou encantamento. Sancho, que sabia muito bem a forma doméstica da peça, procurou afastar-se como quem não quer ser encontrado pela verdade.
O barbeiro apontou também para a albarda. Disse que o escudeiro a usava ou a escondera, e que todo o mundo podia ver que não se tratava de despojo de guerra, mas de roubo simples. Sancho protestou. Roubo era palavra feia demais para o caso. Se alguma coisa mudara de dono, fora por ordem superior de aventura, e quem servia cavaleiro andante precisava aceitar que os nomes comuns se alterassem pelo caminho. O barbeiro retrucou que, se bacia virava elmo e albarda virava arreio nobre, então a justiça estava doente.
O cura percebeu o perigo de nova gritaria. Fernando e o ouvidor também se aproximaram, interessados em conter a disputa antes que ela se juntasse às outras. Mas a venda inteira, cansada de tragédias, encontrou naquela querela um alivio quase festivo. Depois de amores desfeitos, cativos, fugas, pais severos e donzelas aflitas, uma briga sobre bacia e albarda parecia menos cruel, embora não menos barulhenta. O vendeiro, que se lembrava do primeiro prejuízo deixado por Dom Quixote, não achou graça nenhuma.
Dom Quixote declarou que a peça era o famoso elmo de Mambrino, ainda que por artes de encantadores parecesse bacia aos olhos vulgares. Explicou que os inimigos da cavalaria costumavam desfigurar objetos nobres para humilhar quem os portava. Assim, se alguns viam latão de barbeiro, era porque a realidade estava coberta por véu mágico. Sancho, tomando coragem, acrescentou que talvez fosse meio elmo e meio bacia, conforme o angulo, a hora e a necessidade. Chamou-o de baciyelmo, palavra que saiu de sua boca antes que pudesse prendê-la.
A palavra fez alguns rirem, e o riso piorou a majestade do julgamento. Dom Quixote lançou a Sancho um olhar de censura, mas o estrago estava feito. O barbeiro agarrou-se ao termo como prova: se até o escudeiro precisava misturar bacia com elmo, então a verdade estava do seu lado. Sancho respondeu que não misturava nada; apenas reconhecia que certas coisas, quando passam por mão de cavaleiro, ficam maiores que seu uso antigo. Uma bacia comum podia não deixar de ser bacia, mas também podia subir de posto.
O ouvidor, acostumado a causas mais formais, ouviu tudo com uma paciência que parecia milagre. Perguntou ao barbeiro se podia provar propriedade. O homem descreveu a bacia, a albarda, o dia da perda, a chuva na estrada e o susto que levara ao fugir. Sancho reconheceu detalhes demais para sua paz e começou a falar de encantamentos preventivos, costumes de escudeiro e compensações futuras. O cura tentou conduzir a discussao para acordo, mas Dom Quixote não aceitava acordo sobre honra: elmo de cavaleiro não se devolvia como utensilio de barba.
Fernando, percebendo que a disputa podia divertir e apaziguar ao mesmo tempo, propôs que se ouvissem testemunhas. Uns declararam que a peça era bacia evidente. Outros, por jogo ou por cortesia a Dom Quixote, admitiram que talvez parecesse elmo em cabeça guerreira. A estalajadeira disse que, para ela, pouco importava o nome, desde que alguém pagasse as dívidas antigas. Maritornes riu escondido. Clara observava sem entender como a mesma casa podia conter lágrimas de amor e uma assembleia sobre latão.
A discussao cresceu até alcançar a albarda. O outro barbeiro, que acompanhara o cura no plano de resgate, quase se comprometeu ao ouvir falar de profissão e bacias. Sancho defendeu a posse com uma eloquência nascida do medo de perder o pouco conforto que ainda tinha. Disse que seu jumento merecia arreios decentes, que o mundo devia algo a quem fora manteado, apedrejado e enganado por promessas de ilha. O barbeiro respondeu que sofrimento de escudeiro não fabricava direito sobre bens alheios.
Dom Quixote, cansado de argumentos miúdos, ergueu a voz. Disse que aquela venda estava sob influxo de encantadores que queriam diminuir suas vitórias. Primeiro chamaram castelo de venda; depois princesa de lavradora; agora elmo de bacia. Mas ele não permitiria que a cavalaria fosse julgada por medidas de barbeiro. Se fosse preciso, defenderia Mambrino pela espada. A ameaça fez o cura tocar-lhe o braço com cuidado e lembrar que princesa Micomicona ainda esperava socorro de maior importância.
Esse nome trouxe algum freio ao cavaleiro. Doroteia, entrando no jogo com a habilidade que já salvara a todos mais de uma vez, pediu que seu defensor não gastasse força com questão menor enquanto um reino inteiro sofria. Dom Quixote aceitou a advertência com gravidade. Disse que, por respeito à princesa, suspenderia a execução da justiça, mas não renunciaria ao elmo. O barbeiro abriu a boca para protestar; Fernando se adiantou e prometeu que a perda seria compensada, se todos aceitassem paz provisória.
A palavra compensação teve mais efeito que todos os discursos. O barbeiro ainda resmungou, mas entendeu que dinheiro certo valia mais que brigar com um louco armado, um escudeiro teimoso, um cura diplomático e uma venda inteira desejosa de ver o caso terminar. A albarda ficou em suspenso, a bacia continuou promovida a elmo e Sancho respirou como quem escapara de sentença grave. A venda voltou a aquietar-se, embora ninguém acreditasse que a paz duraria.
No fundo, a disputa revelara algo que todos já sabiam: naquele lugar, cada objeto tinha dois nomes, cada pessoa duas histórias e cada verdade precisava disputar assento com alguma fantasia. Dom Quixote saiu convencido de ter vencido mais uma cilada dos encantadores. O barbeiro saiu quase convencido de aceitar pagamento. Sancho saiu convencido de que baciyelmo era palavra perigosa. E o cura, observando a confusão diminuir, começou a pensar que talvez fosse hora de preparar um remédio mais forte para levar o cavaleiro de volta para casa.