Capítulo 80 - A indústria de Basílio
Capítulo 80 - A indústria de Basílio
Basílio entrou no prado como aparição fúnebre. Vestia negro cortado por chamas vermelhas, trazia coroa de cipreste e apoiava-se num bastão grande, cuja extremidade de aço ficava presa ao chão. O rosto vinha sem cor, os olhos buscavam Quitéria e a voz saía rouca, porém firme bastante para deter a festa inteira. Disse que, enquanto ele vivesse, ela não poderia tomar outro esposo conforme a lei que ambos conheciam. Acusou-a de entregar a Camacho, por riqueza, aquilo que durante anos fora dado ao amor antigo. Depois ergueu a bênção cruel ao noivo rico, desejando longa vida a Camacho e Quitéria, e morte ao pobre Basílio, cuja pobreza lhe cortara toda ventura.
Antes que alguém pudesse alcançá-lo, puxou o bastão. Metade ficou cravada no chão, e a outra mostrou-se bainha de um estoque escondido. Basílio pôs a empunhadura contra a terra, lançou-se sobre a ponta e caiu banhado em sangue, com a lâmina aparecendo às costas. Um grito partiu dos presentes. Amigos correram para socorrê-lo. Dom Quixote deixou Rocinante e tomou o ferido nos braços, encontrando nele algum sopro de vida. O cura mandou que não retirassem o ferro antes da confissão, temendo que a alma saísse com o sangue. Basílio, quase sem voz, pediu apenas uma coisa: que Quitéria lhe desse a mão de esposa naquele último instante, para que sua morte tivesse ao menos esse consolo.
O cura advertiu-o a cuidar da alma antes de qualquer desejo terreno, mas Basílio respondeu que só se confessaria depois de receber a mão de Quitéria. Dom Quixote, com voz alta, julgou o pedido justo. Camacho nada perderia, dizia ele, porque receberia Quitéria viúva dentro de instantes, e a cerimônia do moribundo seria tão breve quanto um suspiro. Os amigos de Basílio multiplicaram súplicas. Camacho, suspenso e confuso, aceitou, se Quitéria quisesse. Todos se voltaram para ela. A moça, pálida, calada e firme, chegou ao ferido. Ajoelhou-se, tomou-lhe a mão por sinal, e Basílio pediu que declarasse se aquela entrega vinha livre, sem fingimento nem força externa, porque não desejava ser enganado no limiar da morte.
Quitéria respondeu que nenhuma força dobrava sua vontade. Dava-lhe a mão como esposa legítima e recebia a dele, se também a entregasse com entendimento claro. Basílio afirmou que sim. O cura, comovido, abençoou os dois. Nesse mesmo ponto, o moribundo levantou-se com agilidade espantosa, tirou o estoque do corpo e ficou em pé diante de todos. Alguns gritaram milagre. Basílio corrigiu: não milagre, indústria. O cura apalpou a ferida e encontrou o segredo: a lâmina passara por tubo de ferro acomodado junto ao corpo, cheio de sangue preparado para simular morte. A burla ficava descoberta, e com ela o casamento verdadeiro de Basílio e Quitéria.
Camacho e os seus sentiram a vergonha como golpe público. Espadas saíram das bainhas. Os amigos de Basílio responderam do mesmo modo. Sancho, que nunca amou barulho de lâminas, retirou-se para perto das panelas, julgando aquele lugar mais sagrado que qualquer altar da festa. Dom Quixote montou depressa, tomou a dianteira com lança e escudo e mandou todos se detivessem. Disse que amor e guerra admitem estratagemas quando o fim não desonra a coisa amada. Quitéria pertencia a Basílio e Basílio a Quitéria por disposição favorável dos céus. Camacho era rico e poderia buscar contentamento em outra parte; Basílio possuía somente aquela ovelha, e nenhum poderoso a tomaria enquanto houvesse ponta em lança manchega.
O gesto e as palavras de Dom Quixote puseram medo nos que não o conheciam e hesitação nos demais. O cura, prudente, falou a Camacho, lembrando que mulher tão inclinada a Basílio talvez trouxesse ao casamento mais dor que honra. Aos poucos, a cólera baixou. Camacho preferiu mostrar grandeza, aceitando que as festas continuassem como sinal de que a burla não o diminuía. Basílio e Quitéria, porém, não quiseram ficar. Foram com seus amigos para a aldeia do novo marido, levando consigo Dom Quixote como defensor valente. O cavaleiro sentia-se posto em causa justa, e a vitória do engenho pobre sobre a riqueza satisfez nele uma parte muito funda do ofício que dizia servir.
Sancho foi o único que sofreu sem consolo pleno. As bodas de Camacho continuariam até a noite, com panelas, assados, vinhos e danças, enquanto ele seguia o amo para a casa de Basílio, onde a alegria talvez fosse honesta, mas dificilmente teria tanta espuma de ganso e galinha. Levava no caldeiro restos da abundância perdida, e no coração, as panelas inteiras do Egito deixadas para trás. Ainda assim, acompanhou Rocinante, porque a sorte de escudeiro manda trocar fartura certa por justiça duvidosa quando o amo decide. Assim terminou a festa de Camacho para eles: com o rico mantendo a celebração, os pobres levando a noiva, Dom Quixote satisfeito por ter defendido amor e Sancho triste por haver abandonado a melhor cozinha da Mancha.