Capítulo 55 - O cônego e os livros
Capítulo 55 - O cônego e os livros
A carreta avançou devagar, carregando Dom Quixote e as histórias que o haviam empurrado até ali. A jaula rangia a cada solavanco. Sancho caminhava perto, ora olhando o amo, ora olhando a estrada, desconfiado de todos os encantamentos e de todas as soluções dos homens letrados. O cura e o barbeiro seguiam atentos, temendo que alguma palavra mal posta quebrasse o teatro que haviam erguido com tanto custo.
Dom Quixote, dentro da armação, mantinha a dignidade de quem se sabe prisioneiro de forças altas. Às vezes fechava os olhos, como se escutasse conselhos de sábios invisíveis. Outras vezes perguntava a Sancho se Rocinante vinha bem, se Dulcineia teria notícia de seu encantamento e se a princesa Micomicona não sofreria demora injusta. Sancho respondia como podia. Dizia que Rocinante seguia com cara de cavalo ofendido, que Dulcineia talvez soubesse por vias de encantador, e que princesas, sendo princesas, tinham costume de esperar em cadeira melhor que a dele.
Ao meio do caminho, encontraram um grupo de viajantes entre os quais vinha um cônego de Toledo, homem de estudo e conversa afiada. Vendo a estranha procissão, perguntou ao cura que crime cometera aquele homem enjaulado. O cura, depois de pesar o que podia dizer, explicou que era um fidalgo tomado por livros de cavalaria, conduzido de volta para casa por amigos que esperavam curá-lo. O cônego aproximou-se, curioso, e viu no rosto de Dom Quixote a febre de uma imaginação poderosa.
A conversa logo caiu nos livros. O cônego disse que conhecia bem aquelas histórias de cavaleiros invencíveis, ilhas súbitas, gigantes, magos e donzelas perseguidas. Achava nelas mais dano que proveito quando lidas sem medida. O cura concordou, lembrando o estrago visto na casa de Alonso Quijano e o julgamento dos livros que fizera com o barbeiro. Para ele, muita mentira mal ordenada podia adoecer a razão. O cônego foi além: disse que a arte podia inventar, sim, desde que inventasse com proporção, decoro e algum respeito pela experiência humana.
Dom Quixote, ouvindo aquilo, não pôde calar. Ergueu a voz da jaula e perguntou que experiência humana era maior que a dos cavaleiros andantes. Acaso não havia injustiça? Não havia fracos sem defesa, viúvas esquecidas, órfãos, donzelas, prisioneiros, traidores e soberbos? Se o mundo continuava cheio de agravos, por que condenar os livros que ensinavam alguém a combatê-los? O cônego respondeu que o desejo de justiça era nobre; nas novelas cavaleirescas, porém, a grandeza vinha tão misturada ao absurdo que o leitor podia confundir dever com delírio.
Essa palavra, delírio, feriu Dom Quixote mais que pancada. Disse que os que chamavam a cavalaria de delírio eram homens de alma acomodada, incapazes de aceitar que a realidade fosse menor que a honra. Citou Amadis, Palmerim, Tirante e outros nomes como se convocasse testemunhas. Para ele, cada livro era arquivo de feitos, não invenção vazia. Se alguns não viam castelos, gigantes ou encantadores, talvez lhes faltasse vista espiritual. Sancho suspirou: a vista espiritual de seu amo sempre lhe custava dores materiais.
O cônego não zombou. Isso já o distinguia de muita gente que Dom Quixote encontrara. Falou com firmeza e respeito. Admitiu que histórias bem feitas podiam deleitar, ensinar coragem, mover a alma e ampliar o mundo. A imaginação, dizia ele, precisava de ordem. Um livro podia erguer o leitor ou fazê-lo tropeçar; podia orientar o desejo de bem ou inchá-lo até virar perigo. Dom Quixote ouviu como quem escuta inimigo cortês: recusava a tese e reconhecia a elegância do adversário.
O cura aproveitou a moderação do debate para confessar ao cônego sua esperança. Talvez, chegando à aldeia, afastado das estradas e das armas, Dom Quixote reencontrasse algum repouso. Talvez a casa, a sobrinha, a ama e dias iguais fizessem o que pancadas, vendas e encantamentos não haviam feito. O cônego olhou para a jaula e não pareceu totalmente convencido. Disse que uma imaginação daquela força não desaparecia por decreto. Era preciso dar-lhe novo alimento, mais são, ou ela voltaria a procurar antigos venenos.
Sancho, ouvindo falar de alimentos, pensou primeiro em comida. Depois entendeu que falavam de livros e espírito, coisa menos útil para o estômago. Ainda assim, aproximou-se do cônego e perguntou se, em histórias mais bem ordenadas, escudeiros também recebiam ilhas. O cônego sorriu e respondeu que, nas boas histórias, cada um recebia o que sua prudência, mérito e sorte permitiam. Sancho achou a resposta bonita demais para ser favorável. Preferia promessa clara, com nome de ilha e renda anual.
A discussão seguiu enquanto a carreta cruzava a paisagem. O cônego criticava os disparates das novelas; Dom Quixote defendia a necessidade de maravilha; o cura buscava meio-termo; o barbeiro calava, satisfeito por não estar usando saía, véu ou disfarce naquele momento. A cada frase, a jaula parecia menos prisão de madeira e mais palco de um debate maior: quanto sonho pode uma pessoa carregar antes de se perder? Quanta realidade pode suportar antes de empobrecer?
Houve uma parada para descanso. Dom Quixote pediu que o soltassem um pouco, alegando necessidades que mesmo encantamentos deviam respeitar. O pedido trouxe inquietação. O cura temia fuga, o barbeiro temia improviso, Sancho temia que negar aquilo fosse crueldade demais. O cônego observou que nenhum argumento sobre livros valia se começasse por desumanizar o homem discutido. Com cautela, abriram a jaula por breve tempo, mantendo todos atentos. Dom Quixote saiu como cavaleiro que pisa campo inimigo sob trégua.
Livre por instantes, ele esticou o corpo e respirou a estrada. Não tentou correr. Em vez disso, continuou defendendo a cavalaria, agora com os braços mais soltos. Disse ao cônego que a alma humana precisa de exemplos altos, e que os livros de cavalaria, apesar de seus exageros, sabiam desejar grandeza. O cônego respondeu que a grandeza sem juízo acabava pedindo que amigos construíssem jaulas. Dom Quixote calou por um momento. A frase ficou entre eles, pousada na poeira da estrada.
Quando o recolocaram na jaula, não houve violência. O cavaleiro aceitou o retorno ao encantamento como quem adia uma réplica. Sancho caminhou ao lado, mais quieto que de costume. O debate deixara nele uma pergunta incômoda: se os livros eram culpados por seu amo, quem seria culpado por suas próprias esperanças? Ele não lera novelas; ainda assim, acreditara em ilhas com força suficiente para suportar fome, pancadas e medo.
A tarde inclinou-se sobre a estrada. O cônego decidiu acompanhar o grupo por algum trecho, interessado naquela mistura de loucura, lealdade e literatura que nenhum tratado explicava por inteiro. Dom Quixote, dentro da jaula, continuava vencido apenas na aparência. Sua voz ainda podia transformar prisão em encantamento, crítica em ofensa, caminho de volta em etapa de glória. A aldeia se aproximava sem aparecer. Antes dela, ainda havia conversa, poeira e a pergunta que nenhum dos homens sabia responder: como devolver um sonhador à realidade sem matar o que nele havia de mais vivo?