Capítulo 40 - A tentação de Lotário
Capítulo 40 - A tentação de Lotário
O cura voltou aos papéis e a venda acompanhou, como quem já sabe que uma queda pode começar em passos muito pequenos. Anselmo, não satisfeito com relatos, decidiu ausentar-se de casa por alguns dias. Disse a Camila que negócios o chamavam fora da cidade. Disse a Lotário que agora, enfim, a prova teria ocasião verdadeira. E a si mesmo disse que tudo era prudência.
Lotário ouviu a decisão com angústia. Tinha imaginado que bastariam respostas falsas para cansar o amigo, mas Anselmo transformava cada recusa em convite a ir mais longe. Se Lotário não aparecesse na casa, o amigo suspeitaria dele. Se aparecesse, a injustiça contra Camila aumentaria. A amizade o prendia de um lado; a honra o puxava de outro; e, no meio, a curiosidade de Anselmo abria caminho como água ruim em parede antiga.
Camila recebeu a notícia da ausência do marido com tristeza comum, sem imaginar o artifício. Pediu-lhe que voltasse cedo, cuidou de preparar o necessário e confiou na palavra que sustentava o casamento. Essa confiança simples, lida em voz alta, pesou sobre os ouvintes. Doroteia baixou os olhos. Lucinda apertou as mãos. Sancho murmurou que enganar quem confia é pecado de duas portas: uma por onde entra a mentira e outra por onde sai a vergonha.
Anselmo partiu. Ou fingiu partir, pois parte de seu plano era vigiar de longe, recolher notícias, medir sinais. Lotário, obrigado pela promessa, foi à casa. Camila o recebeu como sempre: com cortesia limpa, sem excesso, sem frieza ofensiva. Perguntou por sua saúde, agradeceu a visita ao amigo ausente e ofereceu conversa em sala aberta. Nada havia ali que pudesse alimentar culpa.
Mas a situação já não era inocente, porque fora armada para não ser. Lotário sabia demais. Sabia que cada palavra sua, mesmo honesta, fazia parte de uma rede. Sabia que Anselmo esperava dele movimento mais ousado. Sabia que Camila ignorava tudo e, por isso mesmo, estava desprotegida. O perigo não vinha dela. Vinha do papel que outros haviam escrito sem que ela pudesse ler.
Nos primeiros encontros, Lotário permaneceu fiel à própria intenção. Falou pouco, não insinuou nada, manteve distância respeitosa. Depois procurou Anselmo e contou nova mentira: disse que Camila continuava firme, que nenhuma palavra a movia, que o marido podia descansar. Esperava que a repetição da virtude produzisse paz.
Anselmo, porém, não descansou. Quis saber por que Lotário falava tão pouco. Quis saber que palavras usara, com que tom, em que momento. Acusou-o de tratar a prova como visita de cortesia. A ausência, disse, só teria utilidade se Lotário aproveitasse todas as vantagens dela. Era preciso insistir, elogiar, aproximar-se, mostrar desejo. De outro modo, a experiência não passava de teatro mal feito.
Lotário sentiu vergonha e raiva. Era empurrado a fingir desejo até que o fingimento tivesse corpo suficiente para satisfazer o amigo. E aí estava o primeiro veneno: certas máscaras, usadas tempo demais, aquecem no rosto. Ao voltar à casa de Camila, ele já não era apenas amigo tentando proteger inocentes. Entrava como homem obrigado a representar perigo diante de uma mulher que não o esperava.
Camila percebeu a mudança. Lotário ainda era respeitoso; sua presença, porém, trazia um incômodo que antes não havia. Ela perguntou se algo o afligia. Ele respondeu evasivo. A compaixão dela, honesta, atingiu-o de modo inesperado. Até então, Camila fora para ele sobretudo a esposa do amigo e vítima de uma prova injusta. Agora, pela atenção com que o olhava, aparecia como pessoa inteira: inteligente, doce, capaz de cuidado.
Na venda, o cura fez uma pausa breve. Ninguém precisou perguntar por quê. A história chegava ao ponto em que a mentira deixa de proteger e começa a criar aquilo que fingia apenas simular. Fernando ouviu com o rosto fechado. Cardenio, que conhecia bem a traição de amigos, acompanhava cada nome como quem observa uma ponte ranger.
Lotário saiu daquele encontro perturbado. Não amava Camila, dizia a si mesmo. Apenas a admirava. Apenas lamentava a injustiça. Apenas desejava que Anselmo fosse menos louco. Mas os apelos de Anselmo, as visitas repetidas, a solidão fabricada, a beleza serena de Camila e a intimidade permitida pela confiança começaram a trabalhar juntos. Nenhuma paixão nasce sem alimento; Anselmo servia o banquete sem perceber.
Ainda assim, Lotário tentou resistir. Evitou visitas por alguns dias. Anselmo, ao saber, enfureceu-se. Disse que o amigo traía a promessa, que fugia por covardia, que o deixava sem a certeza desejada. Chegou a declarar que, se Lotário não prosseguisse, procuraria outro homem para a prova. Essa ameaça venceu a última defesa prudente. Lotário voltou à casa para impedir mal maior e, ao fazê-lo, aproximou-se do mal que tentava evitar.
Camila recebeu-o com surpresa e alguma alegria inocente, pois julgava suas visitas sinal de amizade pela casa de Anselmo. Essa alegria foi a ferida. Lotário percebeu que desejava ser recebido daquela maneira, como presença querida. Assustou-se consigo mesmo. O papel ganhava vida.
O cura leu então que Lotário começou a falar com mais calor. Ainda não era confissão aberta nem queda completa. Eram palavras um pouco mais demoradas, olhares que permaneciam, elogios que poderiam ser entendidos de dois modos. Camila, honrada e sem malícia, estranhou. Recolheu-se um pouco. Essa resistência deveria salvá-los. Em vez disso, feriu o orgulho nascente de Lotário e aumentou sua atenção.
Anselmo, longe, recebia sinais falsos e verdadeiros misturados. Lotário dizia que a prova avançava, Camila resistia, a honra permanecia firme. O marido deveria alegrar-se. Mas ele queria mais. A certeza que buscava se afastava a cada notícia, como miragem. O curioso impertinente já não conduzia experiência; era conduzido por ela.
Quando o cura encerrou aquele trecho, a venda estava quieta. A tentação ainda não vencera. Mesmo assim, já existia. Anselmo a criara para medir Camila; Lotário começava a senti-la contra si; Camila, sem saber, defendia-se de uma guerra declarada por outros. E todos os ouvintes compreenderam que algumas tragédias começam antes da queda: começam quando alguém prepara o chão.