Capítulo 68 - A noite em El Toboso
Capítulo 68 - A noite em El Toboso
El Toboso recebeu Dom Quixote e Sancho com o silêncio das aldeias em hora funda. As ruas pareciam feitas de sombra, cal, pedra e sono. De longe vinha o ruído de algum animal preso, depois o latido de cães despertados pela presença dos viajantes, depois novo silêncio. Dom Quixote pediu a Sancho que o guiasse ao palácio de Dulcineia, pois ele, tendo sido mensageiro da carta e recebido resposta da senhora, devia conhecer muito bem a casa. Sancho engoliu seco. Na claridade do dia, uma mentira pode procurar buracos por onde fugir; na noite, cada parede se torna testemunha, e nenhuma parecia disposta a ajudá-lo.
O escudeiro tentou ganhar tempo. Disse que vira Dulcineia fora da aldeia, perto de campo aberto, e que talvez não conhecesse a residência tão bem quanto o amo supunha. Dom Quixote estranhou. Se Sancho levara carta, recebera resposta e contemplara a dama, como podia ignorar a casa dela? Sancho respondeu que as visitas de gente humilde nem sempre entram por portas principais, e que damas de tanto merecimento podiam usar recados, criadas, pátios e caminhos menos vistos. O cavaleiro aceitou parte da desculpa, porque tudo que aumentava o mistério de Dulcineia servia também para engrandecê-la. Ainda assim, exigiu que buscassem até achar.
Foram andando por ruas estreitas, dobrando esquinas sem certeza, parando diante de casas fechadas e ouvindo os cães aumentarem a desconfiança. Dom Quixote via em cada parede branca possível sinal de palácio escondido. Sancho via apenas casas de gente que dormiria mal se dois homens começassem a perguntar por dama encantada em hora imprópria. Chegaram a uma igreja, cuja torre aparecia mais escura que o céu. Dom Quixote, ao notar o vulto alto, pensou por um instante ter encontrado torre de alcáçar. Sancho aproveitou a confusão e disse que talvez fosse melhor esperar a manhã, quando portas, rostos e caminhos deixam menos margem para erro.
O cavaleiro recusou a demora. A honra amorosa não deve aguardar comodidade, e ele queria apresentar-se à senhora antes que o sol vulgarizasse a cena. Nesse momento passaram dois lavradores com animais carregados, seguindo para o trabalho antes da aurora. Dom Quixote chamou-os com cortesia e perguntou pelo palácio da princesa Dulcineia del Toboso. Os homens pararam, mais assustados que informados. Disseram que não conheciam princesa alguma com esse nome, embora houvesse na aldeia muitas mulheres honradas e algumas Lorenzas, Aldonzas e moças de família conhecida. Um deles sugeriu que perguntassem ao cura ou ao sacristão quando amanhecesse. Depois seguiram depressa, comentando que viajantes noturnos costumam trazer mais trabalho que proveito.
A menção a Aldonza atingiu Sancho como pedrada anunciada. Dom Quixote, porém, recusou ligar nome rústico à sua dama, salvo como artifício de encantadores. Disse que a inveja talvez houvesse apagado dos moradores a lembrança verdadeira de Dulcineia, ou coberto sua grandeza com nomes baixos para impedir que ele a achasse. Sancho agarrou essa porta com as duas mãos. Sim, talvez houvesse encantamento naquilo; talvez o próprio palácio estivesse diante deles e parecesse igreja, curral ou casa pobre por malícia de sábios inimigos. Dom Quixote ficou inquieto. A possibilidade feria e consolava ao mesmo tempo, pois tornava o fracasso menos humano e mais digno de sua história.
Depois de muito vagar, Sancho convenceu o amo a sair da aldeia e esperar entre árvores próximas. Ao amanhecer, prometeu, voltaria sozinho para buscar Dulcineia com mais discrição. Uma dama de tal altura poderia assustar-se se visse chegar cavaleiro armado, escudeiro cansado, cavalo magro e jumento em plena noite. Melhor seria que Sancho, conhecido por mensageiro anterior, se apresentasse primeiro, preparasse a visita e trouxesse resposta. Dom Quixote aceitou a proposta com pesar e esperança, como homem que entrega a outro a parte mais delicada de sua vida. Saíram de El Toboso sem haver encontrado palácio, janela, criada ou sinal seguro.
Foram esperar num arvoredo fora da povoação. Dom Quixote desmontou em silêncio, olhando para o lado da aldeia como se as casas guardassem um segredo que lhe pertencia. Sancho fingiu arrumar o rucio e os alforjes, mas sua cabeça trabalhava em ritmo duro. Precisava encontrar Dulcineia sem conhecer Dulcineia, trazer resposta sem pergunta, salvar a fé do amo sem cair dentro da própria invenção. O sol ainda não nascera, e já o escudeiro via pela frente trabalho mais perigoso que muita batalha. Dom Quixote, alheio ao aperto de Sancho, passou a noite aguardando a notícia que decidiria o tom de toda a jornada.