Capítulo 116 - A saída do castelo Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 116 de 133
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Capítulo 116 - A saída do castelo

Capítulo 116 - A saída do castelo

Depois de tantas festas, burlas e regalos, Dom Quixote começou a sentir que a permanência no castelo se parecia demais com o repouso que um cavaleiro andante deve evitar. Julgava que sua pessoa fazia falta nos caminhos do mundo e que teria de prestar contas ao céu por tantos dias de mesa farta, cama segura e aventuras arranjadas por mão alheia. Pediu licença aos duques para partir. Eles a deram com mostras de pesar, porque a presença do cavaleiro e de Sancho ainda lhes rendia entretenimento, e a duquesa entregou ao escudeiro as cartas que Teresa Pança lhe enviara. Sancho chorou ao lê-las, lembrando que as esperanças de governo inflamaram sua casa por pouco tempo e que agora voltava às jornadas incertas de seu amo.

Mesmo assim, Sancho achou consolo no comportamento de Teresa. Ela mandara bolotas à duquesa, sinal de gratidão que ele julgava honrado, pois o presente chegara depois de recebido o governo e, por isso, não podia ser tomado como suborno. Repetiu consigo que entrara desnudo no cargo e dele saía desnudo, sem perda nem ganho. Na manhã da partida, Dom Quixote apresentou-se armado na praça do castelo, enquanto moradores e criados observavam dos corredores. Sancho montava o rucio com alforjas, maleta e provisões, muito mais contente do que deixava parecer. O mordomo que representara a Trifaldi lhe dera às escondidas uma bolsa com duzentos escudos de ouro para as necessidades do caminho, notícia que Sancho guardava longe dos ouvidos de seu amo.

Quando todos olhavam a saída, Altisidora ergueu a voz entre as damas da duquesa e cantou uma queixa fingida, cheia de graça atrevida e veneno teatral. Chamou Dom Quixote de mau cavaleiro, acusou-o de fugir de uma donzela ferida de amor e comparou sua partida às fugas de heróis ingratos das histórias antigas. Disse que ele levava consigo suspiros, entranhas apaixonadas, três toucas de dormir e ainda umas ligas que pertenceriam às suas pernas. Misturou lamento amoroso com pragas miúdas: desejou que as aventuras do cavaleiro se tornassem desventuras, que seus jogos fossem infelizes, que seus calos sangrassem e que suas firmezas acabassem em esquecimento. Também lançou sobre Sancho a dureza de não desencantar Dulcineia, para que a pena de uma culpa recaísse em quem a sofria.

Dom Quixote ouviu tudo sem responder de imediato. Voltou-se para Sancho e, invocando a salvação dos antepassados do escudeiro, pediu que dissesse a verdade sobre as toucas e as ligas. Sancho admitiu levar as três toucas, porém negou qualquer conhecimento das ligas. A duquesa ficou admirada com a ousadia de Altisidora, pois, embora a soubesse graciosa e solta, não esperava tal encenação. O duque, desejando prolongar a brincadeira, repreendeu Dom Quixote como hóspede ingrato e ameaçou desafiá-lo se as peças da donzela não fossem restituídas. O cavaleiro respondeu com cortesia que jamais levantaria a espada contra quem tantas mercês lhe fizera, que devolveria as toucas se Sancho as tinha, e que as ligas deveriam estar em algum esconderijo da própria Altisidora, pois ladrão ele nunca fora e nunca pretendia ser.

A duquesa concedeu nova licença e recomendou que o cavaleiro seguisse com Deus, acrescentando que sua demora só aumentaria o fogo nos peitos das donzelas do castelo. Altisidora pediu então uma última palavra e confessou o descuido: as ligas estavam com ela mesma, postas em seu corpo, como acontece a quem procura o animal em que já está montado. Sancho aproveitou a ocasião para declarar que sabia pouco de encobrir furtos; se quisesse enriquecer por esse caminho, teria encontrado ocasião excelente durante o governo. Dom Quixote inclinou a cabeça diante dos duques e dos presentes, voltou as rédeas de Rocinante, e saiu do castelo seguido por Sancho no rucio. Deixavam para trás a casa das burlas, dos governos fingidos e dos amores ensaiados, tomando enfim a estrada de Zaragoza.

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