Capítulo 62 - O bacharel e o livro impresso Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 62 de 133
Obra Menu

Capítulo 62 - O bacharel e o livro impresso

Capítulo 62 - O bacharel e o livro impresso

Dom Quixote esperou Sansón Carrasco com inquietação que nenhum encantamento anterior lhe causara. Tinha enfrentado moinhos, galeotes, vendas, rebanhos e jaulas, e em todas essas ocasiões pudera ajustar o mundo à grandeza que trazia por dentro. Agora, porém, o mundo lhe devolvia uma coisa mais estranha: um livro. Pensava se o autor seria amigo ou inimigo, se teria entendido a pureza de Dulcineia, se teria contado as derrotas com piedade ou com riso, se a história andaria digna de um cavaleiro ou manchada por mão baixa. Quando Sancho voltou com o bacharel, o fidalgo recebeu o visitante com cortesia ansiosa, quase temendo ouvir o próprio nome sair da boca de outro homem.

Sansón Carrasco era moço de corpo pequeno, rosto redondo, cor pálida, nariz chato e boca larga, com aquela malícia estudada de quem aprende nos livros e nas mesas. Chamava-se Sansón, embora a natureza lhe houvesse negado aparência de força, e trazia nos olhos uma disposição viva para a zombaria. Ao ver Dom Quixote, ajoelhou-se diante dele e pediu-lhe as mãos, chamando-o de um dos mais famosos cavaleiros andantes que houve e haveria sobre a terra. Louvou Cide Hamete Benengeli, autor da história, e também quem a passara do árabe para língua comum. Dom Quixote mandou que se levantasse, já dividido entre prazer e desconfiança.

O bacharel confirmou que a história existia, andava impressa em muitos exemplares e corria por reinos e cidades com rapidez difícil de acreditar. Falou de Portugal, Valência, Barcelona, Amberes e de outras partes onde o nome do cavaleiro já ganhava leitores. Dom Quixote sentiu a doçura perigosa da fama em vida. Disse que nada alegra mais um homem virtuoso do que ver seu bom nome nas línguas do povo, desde que o nome saia limpo. Sansón assegurou que o livro pintava com viveza sua coragem, sua paciência, sua continência amorosa e a fidelidade a Dulcineia. Sancho interrompeu para notar que nunca ouvira chamarem Dulcineia de dona, e que nisso a história já começava a pôr enfeite onde ele conhecia chão batido.

Vieram então as perguntas sobre quais aventuras mais agradavam aos leitores. Sansón contou que uns preferiam os moinhos, outros os pisoeiros, outros os exércitos de carneiros, o morto levado pela estrada, a libertação dos galeotes, o combate com o biscainho e até o infortúnio de Sancho na manta. O escudeiro protestou, dizendo que não fizera cabriolas por gosto; quem dançara fora seu corpo no ar, lançado por mãos alheias. Dom Quixote defendeu que toda história humana possui altos e baixos, e que os livros de cavalaria, por tratarem de perigos, não podiam guardar apenas sucessos felizes. Sansón respondeu que alguns leitores desejariam menos pancadas no relato. Sancho, com a memória das costelas, disse que aí justamente entrava a verdade.

A conversa tomou rumo de juízo literário. Dom Quixote sustentou que certas derrotas poderiam ser deixadas de lado quando diminuíssem o senhor da história sem mudar o fundo dos fatos. Sansón contrapôs que o poeta escreve as coisas como deviam ser, enquanto o historiador as escreve como foram, sem aumento nem corte. Sancho aproveitou para lembrar que, se a verdade mandava tanto, suas próprias pancadas deveriam aparecer ao lado das do amo, pois nenhuma vara media as costas de Dom Quixote sem alcançar também o corpo do escudeiro. O bacharel chamou Sancho de segunda pessoa da história, e Sancho, satisfeito, perdoou quase tudo por ouvir que muita gente gostava de suas falas mais do que de muitas façanhas.

Nem tudo, porém, era louvor. Sansón contou que alguns censuravam o autor por haver colocado no livro a novela do Curioso Impertinente, julgando-a boa em si, porém afastada da vida de Dom Quixote. O cavaleiro tomou a crítica como prova de falha grave e comparou o autor a pintor que fazia qualquer figura e depois precisava escrever ao lado dela o que pretendia representar. O bacharel, sem perder o sorriso, disse que o livro era claro para crianças, moços, homens e velhos, tão lido que bastava aparecer um rocim magro para alguém lembrar Rocinante. Acrescentou, entretanto, que havia dúvidas sobre o roubo do jumento de Sancho e sobre os cem escudos achados em Serra Morena. Sancho, sentindo o estômago mais urgente que a posteridade, declarou que resolveria contas e contos depois de comer. Saiu para casa, prometendo voltar, enquanto Dom Quixote convidava Sansón a ficar à mesa e continuar a conversa.

1/1
Menu

Fazer anotação